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MILITANTE DA LIBERDADE
 


A
contecimento aterrador que pôs pelo chão toda e qualquer crença ingênua no poder da razão em restaurar a unidade da vida, dilacerada ao revolulongo de séculos, a Segunda Guerra Mundial torna-se, pelas destruições causadas e por suas seqüelas, um verdadeiro desafio ao pensamento humano.


A guerra foi possível. O mal absoluto espalhou-se pela Europa. Povos foram humilhados e esmagados. Pessoas foram dizimadas com menos cerimônia do que se faz hoje com copos descartáveis em fábrica de reciclagem. Como isso foi possível?
Qual o valor da vida humana? O que pode o homem? Poderia ter sido diferente? O vazio espiritual causado pelos horrores da guerra pedia com urgência resposta para questões como essas. Quem sentiu na pele a frieza cruel de bisturis ávidos por certezas científicas (experimentos para obter uma raça pura) já não poderia esperar do conceito (e da razão que cria conceitos) nenhum elixir para a angústia de ver mutilada sua liberdade pessoal.

A França fora invadida pelas tropas nazistas alemãs e era preciso resistir. O existencialismo trazia a mensagem necessária à sede de resistência que uma tal circunstância exigia, não só por meio de tratados filosóficos, mas também de romances, peças de teatro, roteiros de filme, poemas e discussões. Mas Sartre não escreveu apenas uma obra capaz de levar orientação segura a uma época desnorteada e a um país dividido entre a covardia da colaboração com os nazistas e a coragem heróica da resistência – obra, aliás, que lhe rendeu o Prêmio Nobel de Literatura, em 1964, prontamente recusado por ele, que não quis transformar-se em uma instituição, criando distância esterilizante entre si mesmo e seu público. Em seus livros, Sartre produziu ainda um pensamento sólido, apto a responder aos impasses herdados pela tradição da filosofia moderna – ou seja, seu trabalho é algo que ultrapassa o simples consolo das inquietações de um momento histórico conturbado.

Por isso, ao falarmos desse célebre pensador francês, creio que o leitor atual merece saber muito mais do que sobre a moda arrefecida do “existencialismo” ou sobre a “lenda Sartre”. A moda gosta de palavras prontas: “a literatura engajada”, “o existencialismo é um humanismo”, “a existência precede a essência”, “o homem está condenado a ser livre”. A “lenda Sartre” costuma lembrar de sua concepção dos dois tipos de amor: o amor necessário, vivido por longas décadas com uma só mulher, Simone de Beauvoir; e o amor contingente, vivido por todos os lados com não importa quem. O Sartre imponente e centralizador de amizades. O Sartre entregador de panfletos contra o governo francês e a favor da independência da Argélia. O Sartre polêmico e viajante incansável, que tomava para si todas as causas de lutas contra a opressão (“O silêncio é reacionário”, dizia ele). O simpatizante de Cuba, da revolução cultural de Mao Tsé-tung; da União Soviética etc. Mas, por baixo da moda e além da lenda, há um Sartre filósofo e pensador exigente bastante interessante.



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