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As comemorações do centenário
de nascimento de Jean-Paul Sartre reavivam o interesse
pelo pai do exixtencialismo ateu
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Você
já deve ter ouvido falar aqui e ali que, neste ano,
se comemora o centenário de nascimento do filósofo
Jean-Paul Sartre. E pode ter pensado: quem foi essa curiosa
figura escondida atrás desses óculos? Quando
tentamos identificar Sartre nos manuais de história
da filosofia, encontramos a informação de que
se trata do escritor francês fundador do existencialismo
ateu. O existencialismo, corrente de pensamento fundada por
Soren Kierkegaard, filósofo dinamarquês do início
do século XIX, surge como reação contra
o sistema filosófico de G. W. F. Hegel (1770-1831).
O pensamento hegeliano alcançou um nível tão
alto de especulação que, segundo Kierkegaard,
terminou por deixar de fora o que realmente interessa à
filosofia: a vida concreta dos homens e seu desencontrado
e misterioso destino perante o Absoluto (entendido como a
realidade que não depende senão de si mesma
para existir).
O homem só
Um pensamento que se resolve numa “razão absoluta”
perde a sensibilidade quanto às fortes questões
do indivíduo solitário e angustiado. A razão
absoluta identifica tudo com um só conceito: visto
de uma certa altura, tudo é um. Mas o indivíduo,
entregue à sua dor, faz a diferença que esse
conceito não consegue abarcar. Kierkegaard impressionouse
com a história de Isaac e Abraão: Deus havia
enviado um anjo a Abraão e pedido que matasse seu único
e amado filho, mas como saber que teria sido mesmo Deus que
fez esse pedido? “Está tudo certo, comenta Sartre,
se foi realmente um anjo que apareceu e disse: tu és
Abraão, tu sacrificarás o teu filho. Mas cada
qual pode perguntar-se (...): trata-se realmente de um anjo,
e sou eu realmente Abraão? Quem é que afinal
me prova?” Na hora de uma decisão, não
há razão absoluta que me proteja sob o grande
sol de seus conceitos. Tenho de encontrar em mim, e somente
em mim, a razão ou a desrazão de meu ato ou
de minha omissão. E este “em mim” quer
dizer no conjunto das situações que compuseram
minha existência. Kierkegaard, no entanto, era religioso.
Já Sartre, não conta mais com Deus. Radicaliza
a posição kierkegaardiana de centrar o pensamento
na existência individual. Então, ele cita a famosa
frase de Dostoievski, “Se Deus não existe, tudo
é permitido”, para mostrar que aí se encontra
o ponto de partida de seu existencialismo.
A “permissão” que aí se entrevê,
porém, tem um sentido bem preciso: ao indivíduo
não sobrará nenhuma desculpa para seus atos.
Não poderá recorrer a Deus para explicar por
que agiu assim e não de outra forma. Se “tudo”
é permitido, então não há escapatória:
o que for decidido será de inteira responsabilidade
de quem decidiu. Se você é o que tem sido, não
foram seus pais que o fizeram assim, não foi a “sociedade”,
não foi Deus. Se tudo é permitido, então
estaria aberta a possibilidade de você ser outra pessoa.
O homem não nasce com uma essência (provavelmente
criada por Deus) e se condena a ela para o resto da vida.
A “essência”, aquilo que identificaria o
homem, não vem antes de sua existência. É
o que você faz da sua vida que vai fazer de você
este ou aquele tipo de homem. E não o contrário:
você seria assim e assado por que foi feito desse modo
por outrem.
A moda e o mito
Adiante voltaremos a este assunto e tentaremos explicar por
que Sartre sugere que pensemos dessa forma. Por ora, gostaria
de registrar os motivos por que, 25 anos depois de sua morte,
ainda nos lembramos de celebrar o centenário de seu
nascimento. Isso ocorre por dois motivos. Primeiro, porque
a obra deixada por esse escritor fecundo é, de fato,
uma obra digna de ser lida e relida. Em segundo lugar porque
o existencialismo, durante a vida de Sartre, desempenhou na
Europa e em grande parte do mundo um papel deveras marcante,
a ponto de se tornar mesmo uma moda. O auge dessa moda teria
sido os anos que se seguiram à Segunda Grande Guerra
(final da década de 1940 e toda a década de
1950).
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