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PARA QUE SERVE A FILOSOFIA?
 

Cultura utilitária
Seria o caso de perguntar por que, diante de algo que não conhecemos ou conhecemos pouco, pensamos que saberíamos mais se soubéssemos para que serve esta coisa? Se não estou enganado, isso ocorre porque vivemos numa civilização na qual o conhecimento é produzido de modo a privilegiar sua utilização.

Se na física, por exemplo, os conhecimentos são produzidos em condições que, de uma maneira ou de outra, acabam tendo uma utilidade prática, então é lícito questionar para que servem os conhecimentos produzidos pela filosofia – se é que se pode chamar de conhecimento o que ela produz! Mas será que pensamos desse modo de uma hora para outra? Qual o processo histórico que nos ensina que é assim que devemos pensar?

O processo histórico que nos deixou na situação de olhar para algo sempre em vista de saber sua utilidade foi produzido sob certa noção de racionalidade. A racionalidade é o modo como traçamos a relação entre nossa inteligência e o mundo. Julgamos que seríamos tanto mais inteligentes quanto mais dominássemos as forças da natureza. Sob esse pretexto, esse empreendimento se tornou, ao longo do tempo, a forma mais cruel de depredação. Pensar era, nesse contexto, tomar providências para tirar o máximo de proveito dos recursos naturais, sem a menor preocupação em sarar as feridas que essa extração provocava no meio ambiente. Uma delas é o superaquecimento da Terra, uma ameaça que põe em risco o futuro da humanidade. Mas não é só. Como alguém já disse, a primeira coisa que o homem tocou para dominar foi a mulher. Ou seja, seu semelhante. E quando pensamos que a busca da dominação do meio externo exacerba-se na dominação da natureza interna do homem (sua alma), logo começamos a entender eventos comuns em nossos dias, como a violência. Eventos que atrapalham a possibilidade de uma forma de vida passível de ser chamada de feliz. A felicidade ultrapassa toda noção de utilidade porque é um bem em si: ninguém quer ser feliz para outra coisa, ser feliz não serve para alcançar algo mais além. Mas a cultura utilitária de nossa civilização deturpa a idéia de felicidade, e nos faz pensar que seremos tanto mais
felizes quanto mais soubermos utilizar as pessoas, como o primeiro homem utilizou a mulher, e os filhos e os mais fracos, para destruir a natureza e a nós mesmos depois.

Exercício de liberdade
É, pois, porque vivemos numa civilização das vantagens (sobre a infelicidade alheia) que somos levados a perguntar para que serve isso e aquilo e também a filosofia. Jogaremos fora, então, a pergunta? Diremos, então, que a filosofia tem a ver, como tem, com certo exercício de liberdade? Que a filosofia, toda vez que serve, deixa de ser filosofia, porque abandona sua liberdade? Que, neste sentido, a filosofia não serve a ninguém nem a nada? Diremos que a filosofia é uma forma de felicidade? É possível. Mas o leitor que chegou até aqui está longe de ser tolo, e pode perfeitamente retrucar: não perguntei a quem serve a filosofia, ou a quê, mas o que posso fazer com ela e, se Chanson d’Amour, de Giorgio de Chirico: não posso fazer nada com ela, o que ela pode fazer comigo. Digamos, então, que a filosofia, como exercício de liberdade, pode nos ajudar a nos livrar de saberes reconcebidos, aceitos sem questionamentos, e que, exatamente por não terem sido discutidos, impedem a possibilidade de nos relacionarmos de uma forma diferente com o mundo.

Assim concebida, a filosofia não é bem um saber que possamos utilizar aqui ou ali. É, isto sim, um fazer (uma forma de pensar) que nos ajuda a escolher que saber podemos (para o bem ou para o mal) utilizar, seja em que circunstância for. Se, ainda assim, você quiser pensar na filosofia como um instrumento, digamos que ela seria uma espécie de “desconfiômetro”, uma peça de nossa inteligência utilizada para não engolirmos a primeira certeza que nos oferecerem como sendo uma verdade indiscutível. Serve, por exemplo, para nos estimular a suspeitar de que a importância de algo está em sua utilidade, e assim descobrirmos que é porque não é útil que a filosofia é importante.

Quando aprendemos a pensar para além do modo como nos ensinaram que seria o certo, quando duvidamos de nossas certezas absolutas, quando não abrimos mão de nossa liberdade e quando indagamos se isso que chamamos “nossa liberdade” é mesmo uma liberdade pode ficar em alerta porque estamos pondo para funcionar o desconfiômetro da filosofia. Estamos começando a filosofar.

 

Abrahão Costa Andrade, poeta, ensaísta, professor de filosofia da UFRN, autor de Ricoeur e a Formação do Sujeito (Ed. PUC-RS, 2000), Angústia da Concisão, Ensaios de Filosofia e Crítica Literária (Escrituras, 2003), entre outros livros.

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