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Perguntar sobre a utilidade das
coisas é uma mania de nossa cultura. No caso
em questão, a resposta pode surpreender
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Fique
tranqüilo porque tenho a intenção de responder
o mais honestamente possível a essa questão.
Para tanto, porém, preciso de sua paciência.
É que, para dizer para que serve a filosofia, precisamos
usar a filosofia, e sem a tal paciência isso dificilmente
ocorre. Queria, antes, que você pensasse comigo a respeito
da seguinte questão: o que é uma coisa quando
ela serve para algo? Um martelo é um instrumento usado
na fixação de pregos. Uma auto-estrada é
um meio pelo qual pessoas e mercadorias podem se locomover
numa cidade ou entre cidades.
Quando, portanto, perguntamos para que serve a filosofia,
temos uma série de noções guardadas em
silêncio a respeito dela e do mundo.
Acontece que, se essas noções são corretas
na maioria dos casos, talvez não sejam no que se refere
à filosofia. Talvez exatamente por isso é que
não encontramos com facilidade a resposta certa para
a bendita pergunta. E que noções são
essas?
Quando perguntamos para que serve a filosofia supomos que
ela seja um instrumento, como um martelo, ou que seja um meio,
como a autoestrada. Sabemos que sem o martelo o marceneiro
pouco pode fazer em seu trabalho. Do mesmo modo, sem auto-estradas
a cidade se tornaria um caos. Dizemos, então, que o
martelo é importante para o serviço de marcenaria.
Que a auto-estrada é importante para a ordem urbana
e o progresso do país. Guardamos em silêncio,
portanto, a idéia de que a importância de algo
se mede por sua utilidade. Por isso não perguntamos,
simplesmente, qual a importância da filosofia. Cortamos
o caminho e ganhamos tempo indagando logo para que serve,
qual sua utilidade. O erro que há nisso é pensar
que a filosofia possa mesmo servir...
Então não serve? Vamos com calma. As perguntas
que fazemos nunca nascem do nada, não estão
prontas desde toda a eternidade. Por isso, jamais são
tão inocentes quanto, por vezes, parecem. Perguntas
são modos de falar. Falar é um modo de relacionar-se
com o mundo. É porque vivemos desta e não de
outra maneira que fazemos essa e não outra pergunta.
Poderíamos até contar a história de todos
os povos a partir do recenseamento das questões que
eles se colocaram. A história, decerto, é o
conjunto das providências tomadas pelos homens para
atender às suas necessidades. Mas a história
é também o conjunto das invenções
de novas necessidades. Houve um momento em que as pedras já
não mais satisfaziam todo o interesse de quem escrevia,
e então alguém se perguntou se não seria
possível escrever sobre outras superfícies.
Essa pergunta, note, não teria cabimento se já
não estivéssemos dentro de uma forma de vida
da qual fazia parte o ofício de escrever. Assim, vale
a pena nos indagar sobre que forma de vida é essa nossa
que nos faz julgar necessária a pergunta “para
que serve a filosofia?”
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