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TEORIA
DOS ÁTOMOS
Embora
“materialista” e “materialismo”
sejam conceitos elaborados nos séculos XVII
e XVIII, a idéia de que há apenas uma
substância na natureza existe desde a Grécia
pré-socrática, ou seja, desde o século
VI a.C, e era defendida pelos filósofos chamados
atomistas. Leucipo e Demócrito foram os precursores
dessa corrente. Para eles, só existem os átomos
e o vazio, o universo é infinito e eterno (ou
seja, jamais fora criado) e o fluxo das coisas se
dá ao acaso, em turbilhões, conforme
uma necessidade universal.
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Como peças do brinquedo Lego, tudo na natureza e na
realidade é composto de átomos, inclusive os
pensamentos e os sentimentos. A alma seria uma parte do corpo.
Contudo, os átomos que constituem a alma seriam diferentes
dos átomos que formam a matéria bruta. Seriam
de outra categoria, isto é, mais sutis, finos e arredondados.
No entender desses materialistas antigos, os átomos
são heterogêneos, diferenciando-se uns dos outros
pela forma, pela ordem e pela
posição na natureza. Compostos de átomos
também seriam para eles os deuses, seres imortais e
modelos de felicidade, os
quais, ao contrário do deus judaico-cristão,
não aterrorizavam
nem se intrometiam na vida dos homens. Nesse sentido, um materialista
não é necessariamente um ateu, como se costuma
pensar.
A corrente iniciada por Leucipo e Demócrito teve seqüência
no mundo antigo com Epicuro e depois com Lucrécio.
Epicuro, por exemplo, morou num jardim, em Atenas, na companhia
de escravos e prostitutas, onde elaborou uma ética
baseada na moderação dos prazeres e na cessação
da dor, tendo como meta a felicidade. Discípulo de
Epicuro, Lucrécio escreveu o célebre Da natureza
das coisas, uma síntese das idéias do seu mestre.
Entretanto, a concepção hedonista (o prazer
é o bem supremo) de felicidade do epicurismo fez dessa
nova versão do materialismo antigo uma das doutrinas
mais combatidas pelo pensamento cristão durante a era
medieval. Ressuscitado
no Renascimento e revigorado em seguida por filósofos
como Pierre Gassendi (1592-1655), o materialismo foi responsável
pelo grande avanço das ciências biológicas
no Iluminismo francês. Nessa época, aliás,
já não admite a existência de deuses materiais,
ou seja, torna-se ateu, como podemos verificar de maneira
bastante expressiva na obra de Jean Meslier (1664-1729). Mais
do que ateu, esse materialismo, ao menos na França,
se fez militante, elegendo como alvo de sua crítica
implacável a religião, em particular a Igreja
e o cristianismo. Com o marquês de Sade (1740-1814),
extrapola em sua radicalização, sobretudo no
plano da moral. Por fim, torna-se revolucionário no
século XIX, com o marxismo, que servirá de referência
filosófica e política para várias rebeliões
e revoluções populares ocorridas ao longo do
século XX. Parceiro histórico das ciências,
com quem esteve lado a lado na luta contra o obscurantismo
religioso, o materialismo mostra-se vivo em nossos dias mediante,
por exemplo, as descobertas da genética e o avanço
da nanotecnologia, técnica que permite a manipulação
de partículas em nível atômico, possibilitando
a criação de elementos inexistentes na natureza.
Paulo Jonas de Lima Piva é doutor
em filosofia pela USP, pós-doutorando em filosofia
pela Universidade São Judas Tadeu (USJT)/Fapesp, professor
da USJT e autor de O ateu virtuoso: materialismo e moral em
Diderot (Discurso Editorial). prof.piva@usjt.br
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