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O HOMEM POR INTEIRO
 


Sujeito dividido

A descoberta do inconsciente e da força persistente de seus desejos é um dos pilares da nova área de conhecimento e de terapêutica fundada por Freud, a psicanálise.

Ela não só se volta para o inconsciente como, ao contrário da tradição, elege-o como objeto privilegiado de seus estudos. Para formular a psicanálise, Sigmund Freud levou em consideração suas próprias perturbações neuróticas, seus dilemas íntimos, as emoções que se mostravam estranhas para ele mesmo. O pesquisador se impôs a necessidade de desvendar a si mesmo para avançar em sua elaboração teórica. Freud criou a psicanálise analisando sua própria alma.

Ao dar importância às anomalias de sua subjetividade, Freud se pôs contra o pensamento de sua época. Muitos de seus contemporâneos estiveram mais próximos que ele das descobertas que mudariam as concepções de ser humano. Entretanto, diante do desconhecido que insistia em aparecer, eles retrocediam, sem conseguir abandonar a tradição. O pai da psicanálise, persistindo na exploração de seu próprio inconsciente, descobriu um sujeito dividido entre suas idéias sobre si e seus desejos. Portanto, bem distante da concepção tradicional de “indivíduo”, cujo significado etimológico é não-divisível. Em particular, o campo de saber instaurado por Freud se opunha a uma das mais tradicionais correntes da filosofia, a do cógito cartesiano: um “eu pensante” que seria pura consciência de si e das coisas (veja a seção Um filósofo, uma idéia).

Freud não gostava de filosofia. Embora apresentasse tendência à especulação desde sua juventude, esta era energicamente coibida por ele e não foram poucas as suas pilhérias dirigidas aos filósofos. De fato, há grande diferença entre a maneira pela qual a psicanálise foi construída e a meditação dos filósofos. Estes, em sua maioria, sempre contaram apenas com sua reflexão e com o estudo das obras filosóficas. Freud, por outro lado, se ateve à sua clínica, ao seu trabalho de análise e ao material trazido pelos seus pacientes.

O próprio Freud se deu conta da dimensão de sua descoberta. Escreveu ele que, durante a modernidade, a humanidade sofre três grandes perdas que formam feridas em seu narcisismo, em seu sentimento excessivamente positivo com relação a sua própria imagem. Em um primeiro momento, Copérnico mostra que o planeta Terra não está no centro do Universo e gravita em torno do Sol como todos os planetas. Depois, Darwin comprova que o Homo sapiens descende dos primatas, portanto, os homens não são feitos à imagem e semelhança de Deus. Por último, a noção de inconsciente torna problemática a concepção do homem como ser racional porque, agora, sabemos que a racionalidade está circunscrita à consciência, instância cujo campo de atuação é pequeno e tem pouco poder em relação ao inconsciente.

Tendo em conta essas implicações, Freud também levou sua teoria ao campo da cultura em geral. Para ele, as conquistas da civilização trazem melhorias para a sociedade, mas cobram uma contrapartida dos homens: a repressão de seus desejos, a renúncia pulsional e o adiamento das satisfações. Essa contradição foi objeto de preocupação em toda a trajetória freudiana e é o tema principal de Mal-estar da cultura. Freud se perguntava acerca da possibilidade de reconciliação entre as exigências da civilização e a vida individual. Em outras palavras, nosso autor se perguntava sobre as possibilidades de felicidade — um tema que já fora assunto filosófico, mas esquecido pela filosofia contemporânea.

 

Luciano Pereira é mestrando em Filosofia na USP. luciano@riseup.net

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