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O HOMEM POR INTEIRO
 


Com a teoria do inconsciente, Freud iluminou o lado obscuro
do ser humano e revolucionou
a noção de sujeito


A
tradição de maior força do pensamento ocidental elegeu a consciência como objeto principal de suas preocupações, por ser ela a matriz de nossa capacidade de conhecer e julgar. Somos pessoas maduras, vivemos conforme nossa vontade, devemos ser responsáveis por nossos atos, fazemos escolhas em nossas vidas e nos julgamos donos de nosso destino porque buscamos sempre agir de forma consciente, ainda que isso seja um ideal. A consciência é a sede de nossa racionalidade. Ao dizermos que o homem é um ser racional, nos referimos às nossas faculdades intelectuais, todas elas pertencentes à vida consciente. E o mais importante: a consciência é nossa instância de julgamento moral, é o que nos ajuda a decidir o que é justo e injusto, bom ou mau, digno e indigno.

As forças desconhecidas de nossa mente, aquelas que estão para além de nosso próprio controle, nunca foram levadas muito a sério como matéria para a reflexão filosófica. Elas não podiam preocupar verdadeiramente homens que se prezavam por sua racionalidade. Foram, então, excluídas da vida do homem adulto e atribuídas aos que não ascenderam ao mundo da razão, isto é, os loucos, as crianças, os povos considerados primitivos e, até mesmo, as mulheres.

Um outro em nós
Porém, todos nós sabemos que, às vezes, algo estranho em nós mesmos surpreendentemente nos divide. Parte de nós quer uma coisa, outra parte mais forte e desconhecida aponta para outra coisa. Por vezes, somos acometidos por sensações e sentimentos que causam sofrimento e para os quais não encontramos nenhuma explicação razoável. Normalmente, procuramos afugentá-los. No entanto, nem sempre somos bem-sucedidos. Aquelas idéias ou sensações retornam como fantasmas. Sabemos que não existem, mas eles aparecem.

Essas situações servem para indicar enfaticamente a existência daquilo que Sigmund Freud (1856-1939) chamou de inconsciente, uma parcela considerável e poderosa da alma humana que, apesar de nos pertencer, é de difícil acesso. Para usar uma ilustração, o inconsciente é a profundeza escura e longínqua de nossas almas, uma região desconhecida e regida por suas próprias leis, povoada por desejos, emoções e frustrações de nossa primeira infância.

Pouco importa se não conseguimos nos lembrar desses sentimentos de nossa infância, se já não fazem mais parte de nossa memória. Todos eles estão lá gravados no inconsciente. Aliás, eles são o inconsciente. Na verdade, quanto mais desconhecidos eles forem para nós, mais forças terão na determinação de nossas ações na vida adulta. No entanto, não é tarefa das mais fáceis empreender uma viagem em busca desse lado íntimo e remoto de nosso ser – mesmo quando queremos ou necessitamos –, pois a vida inconsciente é paralela à consciência.

Reino das paixões

Embora as forças ocultas de nossa mente nunca tenham sido realmente levadas a sério pelos filósofos, isso não quer dizer que nunca se detiveram sobre elas. Alguns, como os estóicos, encararam o inconsciente como o reino das paixões. Para esses filósofos da Roma clássica, as paixões, que se originam da influência do meio e da má educação, eram quase o oposto da racionalidade. Corrompiam o homem racional. Eram uma espécie doença da alma. Para os estóicos, a verdadeira natureza humana estava em conformidade com a razão e com o agir virtuoso. Por isso, para curar o homem dominado pelas paixões criaram uma medicina da alma.

O estoicismo influenciou fortemente o pensamento ocidental, de forma que as paixões sempre foram vistas como um mal a ser combatido, uma queda do homem na animalidade (isto é, o oposto da racionalidade), uma verdadeira doença. Portanto, Sigmund Freud elegeu como objeto de pesquisa aquilo que os homens sempre tinham relegado a segundo plano ou até escondiam de si mesmos. Não é exagero nomear essa guinada de revolução freudiana. Com a formulação da noção de inconsciente, ele mudou nossa visão de homem e, contra a concepção filosófica clássica, forjou uma noção de sujeito e indivíduo radicalmente nova.


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