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FENÔMENO
DA PERCEPÇÃO
Para Merleau-Ponty, ao contrário, a união
do corpo com o espírito é originária.
Desse modo, não cabe dizer que o pensamento
nos separa da experiência que temos de nosso
corpo e das coisas que nos cercam.
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Isso
permite ao filósofo assumir a convicção
de que a percepção, assim como o pensamento,
se faz nas coisas, uma vez que pensar consiste
em se reinstalar no ato de visão. Reagindo a toda tradição
cartesiana, Merleau-Ponty defende que a verdadeira filosofia
exige reaprender a ver o mundo. Poderíamos dizer, filosofar
exige reabrir os olhos do corpo fechados por Descartes, devolvendo-lhes,
assim, a dignidade filosófica.
Segundo Merleau-Ponty, a cada instante no movimento da existência
estamos integrados ao mundo por meio de nosso corpo. Esta
é a nossa condição. E, para compreendê-la,
temos de reavaliar o fenômeno da percepção.
Devemos nos perguntar como percebemos o mundo e, mais, devemos
inquirir se podemos pensá-lo sem antes percebê-lo.
Descartes havia defendido que os sentidos não são
dignos de confiança, pois não trazem nenhuma
marca de verdade. A atitude de Merleau-Ponty de questionar
a percepção por si mesma tem por finalidade
minar as bases que fundamentam essa desconfiança nos
sentidos. Se é verdade que a percepção
não carrega em si nenhuma marca de sua verdade ou falsidade,
em contrapartida, é apenas a própria percepção
que nos mostra que vimos errado. Assim, por exemplo, ao caminhar
pela praia, posso avistar ao longe um tronco sobre a areia.
Entretanto, ao me aproximar, verifico que não se tratava
de um tronco, mas de um cachorro que dormia ao sol. Não
preciso recorrer a uma instância superior – a
razão – para corrigir minha percepção:
ela corrige a si mesma. Em outros termos, a percepção
é a origem do erro, mas é igualmente a origem
da verdade. E o fato de ela ser ambígua, isto é,
o fato de que ela não nos permite possuir completamente
a identidade dos objetos do mundo não é algo
que deveria nos incitar a desconfiar dela, mas apenas sugere
o começo de sua exploração.
A
percepção é ambígua porque deixa
transparecer a ambigüidade do mundo. Descartes acreditava
que poderíamos possuir a verdade dos objetos pelo pensamento.
Entretanto, critica Merleau-Ponty, o caráter inesgotável
do mundo exige que ele não seja pensado dentro de uma
estrutura de representação na qual os objetos
deveriam se mostrar integralmente a nós. Ao contrário,
a experiência da percepção é uma
espécie de filosofia sem palavras que nos revela o
caráter enigmático do mundo. Disso decorre que
o pensamento é, para Merleau-Ponty, um constante desvelamento
da filosofia latente da visão. Em suma, pensar não
é possuir a representação do mundo, mas
se dirigir a algo que aparece sempre com restrições.
Isto é, pensar é perceber um mundo que a cada
instante desvela seus perfis; é relacionar-se com um
mundo ao qual estamos integrados e do qual não podemos
nos separar. Quer dizer, o mundo não se encontra disposto
diante de um espírito desencarnado que o contempla
e assim o domina. Entranhados na existência, não
podemos renegar nossa condição corpórea
para que a filosofia se instaure, pois o corpo é o
lugar do mundo que nos permite percebêlo e pensá-lo.
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