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A modernidade conheceu um
momento de ruptura radical do homem com seu corpo.
O racionalismo intelectualista de descartes estipulou
que a consciência deveria prevalecer sobre a
sensibilidade
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A filosofia
sempre privilegiou o pensamento e a contemplação.
Ora, contemplar é ver com olhos do espírito
e filosofar é antes de tudo pensar, isto é,
ir além da experiência ingênua do mundo.
Ao longo da história, isto significou muitas vezes
renegar o aspecto corporal de nossa existência. Significou
também desmerecer nossas percepções,
uma vez que tudo que nos chega pelos sentidos parece estar
maculado pela falsidade e pelo engano. Segundo o filósofo
francês Merleau-Ponty, a cultura ocidental está
fortemente contaminada por esse preconceito. Por isso, desafiando
uma longa tradição intelectualista, ele defende
que a capacidade de pensar está necessariamente vinculada
ao corpo e à percepção. Para ele, se
não compreendermos essa vinculação, não
poderemos entender o que é a experiência filosófica.
A modernidade conheceu um momento de ruptura radical do homem
com seu corpo. O racionalismo intelectualista de Descartes
estipulou que a consciência deveria prevalecer sobre
a sensibilidade. Historicamente, a filosofia cartesiana se
configura como o momento exemplar da separação
radical entre o corpo e o espírito – com o estabelecimento
da clássica separação entre res cogitans
e res extensa – segundo a qual o corpo, sede
das paixões, da imaginação e do erro,
deve ser submetido à dominação e ao controle
da consciência enquanto intelecto. Para Descartes, ao
libertar-se do corpo e, conseqüentemente, da confusão
dos sentidos e da imaginação, o homem alcançaria
o saber racional. Ouçamos o filósofo em suas
Meditações: “Fecharei os olhos, tamparei
os ouvidos, afastar-me-ei de todos os sentidos, apagarei de
meu pensamento todas as imagens corporais (...), e, considerando
meu interior, procurarei tornar-me pouco a pouco mais conhecido
e mais familiar a mim mesmo. Sou uma coisa que pensa”.
SEDE
DA ALMA
Para conhecer, a razão deveria encontrar um trajeto
próprio, dissipar os equívocos e a dúvida,
e impor sua verdade. É por isso que a filosofia cartesiana
exige que os olhos do corpo sejam fechados como condição
para que a razão e a verdade clara e distinta predominem.
Isso porque ao tornar-se indiferente ao corpo e ao recusar
seus apelos, o sujeito – coisa pensante – poderia
sobrevoar o mundo e possuí-lo em pensamento. Ora, não
é apenas a separação entre corpo e espírito
que é operada; mais que isso, com ela justifica-se
a hierarquia entre essas duas instâncias. Pois, se o
corpo é coisa extensa – ou seja, um objeto entre
os demais objetos do mundo –, tudo que provém
dele deve ser controlado pela razão.
Ora, a separação entre corpo e espírito
cria um problema para a filosofia cartesiana. Pois, embora
definidos como substâncias perfeitamente distintas,
eles coexistem no homem. E, para esclarecer de que modo corpo
e espírito se relacionam, Descartes terá de
desenvolver engenhosas explicações, apelando
para o papel da glândula pineal, espécie de sede
da alma no corpo, por meio da qual a substância pensante
e a substância extensa podem se comunicar. Todavia,
ao concebê-las como pertencentes a substâncias
completamente distintas, Descartes torna a comunicação
entre elas incompreensível. É por isso que,
no limite, somente em Deus o filósofo pode encontrar
a garantia da comunicação e da conseqüente
união da alma com o corpo, principal característica
de nossa condição.
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