|
Topei
o debate com a condição de que eu propusesse
o tema: os pré-socráticos. Dividi a classe em
grupos e sorteei os filósofos. Cada grupo assumiria
um deles e a tarefa de apresentar a sua cosmologia, sustentando-a
como a explicação mais razoável para
a natureza. Quem conhece o pensamento desses filósofos
sabe que o desafio não é nada pequeno. Mas,
antes que eles iniciassem a tarefa, desenvolvemos um longo
trabalho de estudo, tendo por base o texto Por dentro do debate,
de Márcia Kupstas, que apresenta as regras, funcionamento
e a finalidade de um debate. Em seguida, estabelecemos as
regras da atividade, assim como as etapas de trabalho, dividindo-as
em individual e coletiva e condicionando a segunda à
primeira.
Até o início das apresentações,
eu não tinha uma dimensão exata de qual seria
o resultado. Combinamos que haveria ummomento para a apresentação
do grupo; um pequeno recesso para que todos os demais pudessem
elaborar questões para o grupo, que teria direito à
réplica, e os colegas, à tréplica. Impressionou-me
a concentração de todos
em torno da exposição de cada grupo, a agilidade
com que foram capazes de elaborar questões e apontar
falhas nas argumentações. Durante
a atividade, a mim coube apenas o papel de mediadora. Ao término
do trabalho, promovi a avaliação da atividade,
e os alunos, espontaneamente, identificaram os benefícios
alcançados, demonstrando envolvimento e seriedade durante
todo o processo.
Eles foram sagazes o suficiente para perceber que lá
na Grécia Antiga estava a chave para a filosofia e
aquilo que eles
mais desejavam: debater. Depois de cinco longos meses, esses
alunos realizaram um debate de qualidade, conscientes de que
o fizeram com propriedade, porque sabiam exatamente o que
era um debate – uma discussão meticulosa que
exige não só bons argumentos, mas boa dose de
persuasão. E, para tanto, não pouparam seus
professores de biologia, química, física e matemática
em busca de informações complementares. Nesse
sentido, todas as minhas expectativas foram superadas, pois
não esperava que a transdisciplinaridade fosse efetivada
pelos alunos de forma tão ampla e intensa.
Marta Vitória de Alencar é
professora de filosofia da Escola de Aplicação
– FE-USP
|