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Quando o ensino de
filosofia ganha com a contribuição de
outras disciplinas
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Começar
um curso de filosofia no ensino médio é sempre
uma aventura com desfecho imprevisível. É com
todo cuidado e muita persistência que o professor vai
conseguindo introduzir o aluno no curso, capacitando-o para
a leitura filosófica. A escolha do tema pode tanto
colaborar quanto produzir problemas que, de alguma forma,
temos que solucionar mais à frente. No ano passado,
elaborei, junto com os professores de
literatura e história, um projeto interdisciplinar
intitulado “O Mundo Grego”. A idéia era
aproveitar o lançamento do filme Tróia, de Wolfgang
Petersen, para levar o aluno a alcançar, de modo dinâmico,
a compreensão mais profunda de um dado período
histórico e sua produção cultural. Essa
escolha provocou uma modificação radical no
programa do primeiro ano do ensino médio.
Na aula de história, os alunos estudaram as civilizações
cretense, micênica e grega (arcaica, clássica
e helênica). Em literatura, viram as narrativas primordiais,
os poemas homéricos, o mito do herói e o teatro
grego. E em filosofia trabalhamos o surgimento do pensamento
filosófico a partir da formação da polis
e sua relação com a mitologia grega. Entre outros,
dois livros destacaram-se em nosso curso: O universo, os deuses
e os homens, de Jean-Pierre Vernant, e Os pré-socráticos
– a invenção da razão, de Auterives
Maciel Júnior. Como a avaliação foi positiva,
resolvemos manter o programa para o ano seguinte, fazendo
alguns ajustes.
ARGUMENTAÇÃO
Os alunos queriam falar, perguntar, discutir. Eu vinha imprimindo
um ritmo mais lento, adiando as respostas às suas apressadas
questões, na tentativa de instrumentá-los e
oferecer informações mínimas que permitissem
que, de fato, um curso de filosofia ocorresse.
Assim,
a compreensão do significado do pensamento mítico,
da política como a principal causa do surgimento da
filosofia e a clara compreensão da revolução
que a prática do debate provocava nas explicações
cosmogônicas – forçando os sacerdotes a
exercitar a razão, na tentativa de superar as objeções
que sofriam em praça pública – fizeram
com que os alunos percebessem que a argumentação
era o instrumento próprio da filosofia. Com essa percepção,
eles mesmos encontraram uma saída que os levou à
satisfação do tão adiado desejo de expressão.
Espertamente me solicitaram a realização de
um debate – um espaço no qual pudessem discutir.
No fundo, era essa a idéia que faziam de um curso de
filosofia e, de fato, não estavam tão enganados.
Mas, recém- chegados do ensino fundamental, careciam
de instrumentos para que o curso não se transformasse
num espaço de discussão que pudesse ser feita
de qualquer maneira.
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