
|
Influenciado pelo materialismo de Ludwig
Feuerbach (1804-1872), Marx critica esse
movimento de Hegel. Segundo Feuerbach
não é o espírito que cria o mundo dos homens,
mas os homens que criam o mundo do
espírito. Nessa inversão, os fundamentos do
edifício hegeliano ficam abalados.
|
Assim como Feuerbach, o materialismo
de Marx concebe o homem como parte da natureza,
sensível às carências do ambiente. A
natureza é para o homem o seu próprio corpo,
com o qual deve permanecer em contato contínuo
para não perecer. Mas, diferentemente
de Feuerbach, Marx concebe o homem como
um ser ativo, capaz de modificar ou criar necessidades. Nesse sentido, o homem é um “ser genérico” com “atividade vital consciente”.
É um sujeito para o qual a natureza e a
própria vida lhe são objeto. Enfim, o homem
essencialmente compreende e atua sobre o
gênero das coisas, reproduzindo a natureza
inteira como se fosse parte de seu próprio corpo.
Daí as manifestações culturais que a ação
humana mais elementar pode conter.
No entanto, a antropologia feuerbachiana
não retira a possibilidade hegeliana de
estranhamento no processo de objetificação
da atividade vital. Com isso, a organização
do trabalho que traduz a objetificação em
estranhamento propicia a valorização do
mundo das coisas em detrimento do mundo
dos homens. Esse é o princípio que rege a
série de estranhamentos potencializada no
capitalismo. O homem percebe a si próprio,
as coisas ao seu redor, a sua própria espécie
e a própria relação humana como estranhos à sua essência.
Enfim, Marx encontra a origem lógica da
propriedade privada. É por meio desta que o
capitalismo fixa a prática de estranhamento
entre os homens, apesar mesmo de contrariar
a própria essência humana. A propriedade
privada é, pois, uma necessidade lógica
da organização do trabalho estranho que
compõe o capitalismo. Por tudo isso, a publicação
dos Manuscritos é bem-vinda aos
propósitos de uma Filosofia que deixa de interpretar
o mundo para transformá-lo.
Silvio Ricardo Gomes Carneiro é mestrando
em Filosofia pela Universidade de São Paulo.
PARA SABER MAIS
• Manuscritos
Econômico-filosóficos,
Karl Marx.Trad. Jesus Ranieri,
(Boitempo 2004)
• Obras Escolhidas,
Karl Marx e Friedrich Engels.
(Alfa-Omega)
• Contribuição à Crítica
da Economia Política,
Karl Marx.
(Martins Fontes 2003)
• Manifesto Comunista,
Karl Marx e Friedrich Engels.
(Garamond 1998) |