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Filosofia ou Religião?
É bem verdade que a religião também
procura dar certo conforto e auxílio à nossa existência. Mas, como o
Estado é laico, ela não deve ser ensinada
na escola pública. Cabe então
à Filosofia a reflexão acerca dos valores
morais. Além do mais,
tratando-se de ensinar alguma religião
na escola, surge um sério problema:
qual delas seria contemplada? O
catolicismo, o judaísmo, o candomblé,
o espiritismo, o islamismo?
Como se daria a contratação dos
professores? Mesmo que se contratasse
uma pluralidade de religiosos,
sempre poderia haver algum, de uma
seita qualquer, que se sentiria injustiçado
por ter sido excluído no processo
seletivo. Qual seria o critério utilizado
pelo Estado na escolha dos
religiosos professores?
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Como justificar
que a verba pública seja destinada
ao pagamento do profissional de uma
determinada religião e não de outra?
Dessa maneira, a controvérsia seria
instalada, e o impasse, inevitável.
Mas não teríamos o mesmo problema
no ensino da Filosofia? Poder-se-ia objetar que o seu ensino, financiado
pelo Estado, para ser justo,
teria que incluir a maior diversidade
possível de filósofos (marxistas,
nietzschianos, freudianos, kantianos,
tomistas, platônicos, heideggerianos,
etc.). No entanto, há uma diferença
fundamental entre Filosofia e Religião:
a primeira, ao contrário da segunda,
não possui dogmas. Ela pode
dispor de alguns conceitos e
desprezá-los se não mais servirem à
sua análise. Conceitos são ferramentas
para pensar e agir, e não dados inquestionáveis.
A Filosofia é um pensamento
livre que não se prende a
categorias que não sejam úteis para
avaliar uma situação ou não sirvam
para apontar caminhos na direção de
uma transformação possível.
A Filosofia busca uma orientação
para viver, problematizando as normas
vigentes, criticando práticas tão
arraigadas na nossa sociedade: competição,
propriedade privada, consumismo,
individualismo, trabalho
alienado, niilismo, narcisismo, exibicionismo,
etnocentrismo, etc. Além
disso, a Filosofia, diferentemente da
Moral, vai buscar uma orientação
para nossa conduta sem apelar para
valores estabelecidos. Ao contrário, é
de sua natureza não partir de certezas,
colocar-se na perspectiva imanente
da ignorância, de um não saber
que busca o saber, mas que não
sabe com segurança o que é certo, o
que é errado, o que é o bom e o mal,
o justo e o injusto.
Ao mesmo tempo em que o pensamento
formula questões éticas
(do sujeito consigo mesmo) também
apresenta problemas políticos,
isto é, aqueles decorrentes da relação
que os homens têm entre si.
Numa sociedade de classes, na qual
existe uma divisão de grupos e uma
hierarquia entre eles, a tensão política é permanente. A violência ou a
iminência dela está em toda parte.
Como entender de modo crítico esse
jogo de interesses contrários e como é possível transformar essa situação?
Com que ferramentas conceituais
podemos pensar (e virar)
esse jogo? Eis, mais uma vez, a tarefa
da Filosofia: produzir conceitos
que funcionem para pensar o mundo
político e social de tal maneira
que não haja exclusão de um grupo
em benefício de outro, de tal modo
que a sociedade não se divida, e que
todos sejam contemplados. |