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Esse caminho, com seus personagens e suas tragédias, é uma escolha do poeta boêmio e não acontece em
sua ausência: coloca-se como possibilidade de conhecimento,
como sedução pelas
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coisas do mundo, pelo mistério
a ser desvendado. Diferentemente do romantismo
clássico, que tematiza os obstáculos existentes no caminho
da realização do amor, aqui parte da realização amorosa
que se dá ao longo do próprio caminho. Desfrutar,
observar, conversar, gozar, consolar, silenciar e cantar:
tudo isso é o aprendizado amoroso das coisas do mundo.
Esse passeio pelos becos da noite é uma escolha do
poeta que consiste em não renunciar ao chamado do mundo em nome da urgência do seu amor, pois a amada
o está esperando, e também em não abdicar das delícias
do seu encontro com ela. Na verdade, como Macunaíma,
personagem de Mário de Andrade, ele escolhe não escolher.
Entregando-se à fascinação pelas coisas do mundo
e pela amada, o sambista transita em liberdade por esses
dois mundos que não se opõem, mas se completam.
Impressionado pelo drama dos semelhantes e atento
a eles, busca aprender “as formas de se viver”, e apaixonado
por sua mulher, porto seguro ao fim de sua jornada,
não vê oposição entre as coisas do mundo e as
coisas do amor; elas também são, embora de um modo
diferente, objetos amorosos.
O amor está inscrito no mundo sob diversas formas;
a mais sublime é o corpo de sua amada. O corpo do
mundo é formado de múltiplos corpos amados e, entre
eles, o mais belo e o mais inexprimível é o de sua amada:
Hoje eu vim, minha nêga, andar contigo no espaço
Tentar fazer em teus braços um samba puro de amor
Sem melodia ou palavra pra não perder o valor.
O desejo do amante que se sabe amado não é inflamado
pela impossibilidade do encontro: o poeta tem certeza
da realização de seu desejo amoroso. Decorre que nesse
amor não há um tom trágico e desesperado, mas sim feliz
e apaziguador. É um amor incondicional, sem tensão;
não corre risco nem pede escolhas. Amor paradisíaco.
Há uma linda revelação no final desse caminho e
desse samba: se, por um lado, o sambista quer conhecer o mundo e em nome disso passa suas noites na rua,
por outro, ele revela que o verdadeiro conhecimento
acontece quando está nos braços da mulher amada:
Hoje eu vim, minha nêga, sem saber nada da vida
Querendo aprender contigo a forma de se viver.
No final de seu percurso, ele confessa socraticamente
que nada sabe, pois nada aprendeu em sua caminhada,
e que o verdadeiro conhecimento está nos braços de
seu amor. A amada é fonte de prazer, de calma e de conhecimento,
e sua imagem ganha uma luminosidade
radiante. Impossível não pensar em Beatriz, musa de
Dante, que o inicia nos mistérios do mundo. O amor da
mulher amada é a verdadeira iniciação do sambista no
aprendizado da vida.
Assim, é o amor da amada que poderá ensinar ao
poeta “a forma de se viver”. Mas esse ensinamento é
inexprimível. Diferentemente do samba, ele não pode
ser cantado. “Samba puro de amor”, esse canto “sem
melodia ou palavra” é algo que lhe escapa ao mesmo
tempo em que o abraça, eterno mistério do amor e do
mundo, canção de silêncio e júbilo a acalentar a incerteza
de nossa existência. “As coisas estão no mundo / Só
que eu preciso aprender”. Esse conhecimento almejado é a canção dos amantes que, nas palavras de Dante, “move o céu e as estrelas”.
Eliete Eça Negreiros é cantora e estudiosa de música popular brasileira,
fez mestrado em Filosofia na USP sobre canção e Paulinho da Viola
e, agora, cursa o doutorado também sobre a obra do compositor.
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