
|
A embriaguez aparece não só como evasão diante
dos problemas da vida, mas também como pura
desmesura, como algo que borra o já frágil contorno
das coisas obscurecido pela ausência de luz da
paisagem noturna. Assim como Orfeu, que com os
sons maviosos de sua harpa e de seu canto tem o
poder de acalmar os homens e as feras e de sensibilizar
até as pedras, o sambista com sua viola e seu canto também ilumina o mundo, ao consolar e apaziguar
os corações infelizes.
Diferentemente, porém, daquele que consegue trazer
sua amada Eurídice de volta do Hades, o sambista se
cala diante da morte. Para que seu canto possa iluminar
a noite é preciso que exista ao menos uma centelha de
luz, uma pequena chama de vida. O poeta transforma a
matéria da vida em matéria da poesia, conforta os desafortunados
e não tem pressa alguma em chegar ao seu
feliz destino, ao colo de seu
|
amor: “Hoje eu vim, minha
nêga, como venho quando posso/ Na boca as mesmas
palavras, no peito o mesmo remorso/ Nas mãos a mesma
viola onde gravei o teu nome”.
De madrugada, vagando solitário pela cidade, ele
carrega em seus braços a viola em que está gravado o nome
da amada. Corpo da viola, corpo da mulher amada:
mesmo andando só, ela está metaforicamente com ele, e
seu nome está inscrito ali, no instrumento que ele carrega
e de onde tira a música que o mundo lhe inspira; viola
que se assemelha à sua amada não só pelo formato sinuoso,
mas também pelo dom de vibrar e ressoar aquilo
que ele quer entregar ao mundo: sua poesia.
O tópos do caminho do amor é quase sempre povoado
por acontecimentos que dificultam e adiam o encontro
entre os apaixonados. Pensemos no regresso de
Ulisses a Ítaca e à sua amada Penélope: quantas eventualidades
pareciam impossibilitar o feliz e almejado encontro!
Lembremos de Tristão e Isolda: quantos obstáculos
a inflamar o desejo de união dos amantes, a torná-lo ainda mais forte diante da impossibilidade de
sua realização. A distância, o adiamento, os desvios, tudo
isso torna o desejo de união ainda mais ardente e urgente
nesses dois exemplos clássicos do caminho do
amor. Mas aqui, no mundo da madrugada e do samba,
apesar de o abraço dos amantes ser o motivo do caminho,
o tempo é outro, e outra é a tonalidade do desejo.
Quanto ao tempo, não há pressa, não há urgência. O
poeta vagueia pela noite e até se desculpa pelo seu vagar/
devagar/ divagar: “Na boca as mesmas palavras, no
peito o mesmo remorso”.
Se por um lado o mundo se interpõe entre os apaixonados,
por outro ele não se opõe ao desejo do poeta,
que almeja o encontro amoroso. Aqui, as coisas mundanas
também são objetos de seu amor, pois elas o fascinam,
e ele tenta aprender com elas. O sambista tenta
decifrar, no teatro do mundo, o sentido da vida.
|