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PAULINHO DA VIOLA: SAMBA, CONHECIMENTO E AMOR
 

 

Em Coisas do Mundo,

Minha Nêga, o compositor

transforma o caminho

até a casa da amada

em espaço para

reflexão sobre a vida

 

As coisas estão no mundo / Só que eu preciso aprender.” É com esse verso simples que Paulinho da Viola termina um de seus mais belos sambas, Coisas do Mundo, Minha Nêga. O poeta caminha pelos labirintos noturnos da cidade em direção aos braços da amada. No percurso passeia entre as coisas do mundo e dialoga com elas. Seu caminho é povoado de personagens infelizes.


O primeiro deles é o desafortunado Zé Fuleiro, cujo nome já indica sua condição precária:


Primeiro achei Zé Fuleiro, que me falou de doença que a sorte nunca lhe chega, está sem amor e sem dinheiro.


Diante do infortúnio – doença, falta de amor e de dinheiro–, a saída do sambista é o humor:


Puxei então da viola, cantei um samba pra ele, foi um samba sincopado que zombou do seu azar.


O segundo personagem é Seu Bento, que está caído na calçada, visivelmente embriagado e que havia prometidoà mulher não beber mais... O poeta canta “um samba pra ele, que sorriu e adormeceu”. O samba aqui é como um apaziguamento.


O terceiro e último personagem é um morto, resultado de uma briga banal:


Não foi amor ou dinheiro a causa da discussão
foi apenas um pandeiro que depois ficou no chão.


Uma vida que se apaga por nada. E velas ao redor do corpo iluminam essa ausência de vida, essa escuridão da existência, essa impossibilidade de alento. Diante da morte, o sambista silencia, pois o samba não tem nada a dizer:


Não tirei minha viola, parei, olhei, vim m’ embora
Ninguém compreenderia um samba naquela hora.

 

Orfeu do samba, o poeta traz novo alento às almas dos vivos, mas diferentemente do vate grego, ele não pode despertar os mortos; o poder de seu canto é limitado: para que se realize é preciso um mínimo alento, um sopro, ainda que pequeno, de vida.


As pessoas que aparecem no caminho do poeta, embora desafortunadas, não surgem como obstáculo ao desejado encontro amoroso. O olhar do sambista se detém nelas e inspirado por elas cria o canto que lhes dedica. E todo o samba é um canto para sua amada, sua “nêga”, pois é um relato de tudo que viu, viveu e sentiu nesse caminho em direção a ela. Relato amoroso de um mundo que é apresentado como escuro e em desequilíbrio; onde a tristeza e a embriaguez reinam soberanas, onde a vida e a morte estão perigosamente muito próximas.

 

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