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A terceira objeção kantiana é a de que Espinosa
seria um orientalista, isto é, afirmaria as mesmas
crenças das religiões orientais (hinduísmo, budismo,
taoísmo). Tal opinião também era partilhada por outros
dois grandes filósofos: Hegel (1770-1831) e Schopenhauer
(1788-1860). Na visão deles, ao afirmar
Deus como única substância, Espinosa estaria dizendo
que a realidade de fato é a própria substância. Assim,
nós e todas as outras coisas da natureza, seríamos
apenas maneiras de ser da substância infinita,
ou seja, modos imanentes a ela, sem realidade própria,
individual. Portanto, nessa condição, os indivíduos
seriam absorvidos no Todo e suas personalidades
se apagariam, tal como ocorre nas experiências
místicas orientais.
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Curiosamente, se para Kant, Hegel e Schopenhauer
a Filosofia espinosana desembocava em um “orientalismo
místico”, para os filósofos do Romantismo alemão
do século 19 ela significou algo muito mais positivo.
Lessing (1729-1781), Schiller (1759-1805) e Fichte
(1772-1814) afirmavam que a unidade pura e inocente
entre homem e natureza se perdera ao longo do tempo,
mas poderia e deveria ser reconquistada, agora em
um grau mais elevado de consciência. Eles elogiavam
Espinosa porque sua Filosofia possibilitaria essa reconquista,
pois tinha como resultado um equilíbrio
harmônico entre Deus e natureza, homem e mundo, sentimento e razão. Por isso, eles costumavam dizer: “Ou Espinosa ou nenhuma filosofia”.
A consolidação como precursor
Ainda no século 19, outro pensador importante
que leu Espinosa foi Friedrich W. Nietzsche (1844-1900). Numa carta de 30 de junho de 1881, ele expressa
sua admiração: Estou assombrado e encantado!
Tenho um precursor. E de que gênero! Quase não
conhecia Espinosa e o que me trouxe agora desejos de
lê-lo foi qualquer coisa realmente instintiva. Achei
que não só a sua tendência principal é igual à minha – ‘fazei do conhecimento a paixão mais poderosa’ – se
não que coincido com ele em cinco pontos essenciais
de sua doutrina (...) Entre esses “pontos essenciais”
estava a negação espinosana do livre-arbítrio e de
uma fonte transcendente da moral, em que o bem e
o mal seriam realidades em si.
Na virada do século 19, o filósofo francês Henri
Bergson (1859-1941), em uma frase que ficou conhecida,
disse: “Todo filósofo tem duas filosofias, a
sua e a de Espinosa”, indicando que o espinosismoé o ponto de partida de toda Filosofia, em que o ser
(a substância) é afirmado apenas em sua imobilidade,
sendo preciso, contudo, ir além desse pensamento
para se alcançar a idéia de “elã vital”, que
permeia todo o Ser, dando-lhe vida.
Espinosa plantou ainda outras raízes na França.
Martial Guéroult (1891-1976) escreveu um dos livros
mais importantes sobre o filósofo, intitulado Spinoza.
Nos vários trabalhos de Gilles Deleuze (1925-1995) é marcante a presença de uma interpretação
nietzschiana de Espinosa.
A influência de Espinosa também é notável nos estudos
de vários filósofos da atualidade. Podemos destacar
os trabalhos de Antonio Negri (Itália), com o livro
A Anomalia Selvagem: Poder e Potência em Spinoza
(1993); e de Marilena Chaui, que marcou história na
tradição comentadora do filósofo com a obra A Nervura
do Real: Imanência e Liberdade em Espinosa (1999).
Marcos Ferreira de Paula é doutorando em Filosofia pela USP e
membro do Grupo de Estudos Espinosanos.
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