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Desde suas primeiras
publicações, Bento de Espinosa vem
causando inquetações em grandes filósofos
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Talvez nenhum filósofo tenha se tornado um
grande pensador sem ter lido outro. Espinosa
leu Aristóteles, Epicuro, Descartes e outros. E
os que vieram depois dele não puderam deixar
de lê-lo – de Leibniz a Deleuze, passando por
Hegel, Kant, Nietzsche... Nem todos concordaram
com seu pensamento; alguns chegaram até a execrálo.
No entanto, desde 1677, quando foram postumamente
publicadas todas as suas obras, a leitura de
Espinosa tornou-se essencial.
Mesmo antes disso, o filósofo alemão Gottfried
Wilhelm von Leibniz (1646-1716) já tinha contato
com as idéias do polêmico autor. Leu e comentou a
mais importante obra de Espinosa – a Ética. Mas
quando o acusaram de ser “espinosista”, teve de
defender-se. Nos séculos 17 e 18, ser “espinosista”
significava, antes de tudo, ser ateu. De fato, a definição
espinosana da substância única e absolutamente
infinita rompe por completo com a idéia
judaico-cristã de Deus, e Leibniz tinha consciência
de que concordar com tal assertiva importava em
arriscar a própria cabeça.
O ponto de discórdia
Outro importante filósofo leitor de Espinosa foi
Immanuel Kant (1724-1804). Sobretudo por três
motivos. O primeiro deles está vinculado a uma divergência
com relação à definição de Deus. Na interpretação
de Kant, se Deus não é Providência, não
tem intelecto nem vontade. De acordo com Espinosa,
Deus age apenas conforme as leis de sua própria
natureza, portanto, não haveria lugar nem para o
dever moral, nem para a liberdade, já que tudo
ocorre por necessidade.
O segundo motivo está associado ao primeiro. Para
Kant, só podemos conhecer a realidade enquanto
fenômeno – o que nos é oferecido pela experiência
sensível e inteligível, podendo ser percebido e organizado
por meio das categorias a priori do pensamento:
o espaço e o tempo; mas não podemos perceber a realidade
(que ele chama noûmenon, a coisa em si), que
não é dada à nossa sensibilidade e ao nosso pensamento.
Ou seja, Deus é noûmenon; logo, não pode ser
conhecido, embora a razão possa afirmar sua existência.
Assim, segundo ele, tudo o que Espinosa diz sobre Deus não poderia ser de fato demonstrado. Logo, Espinosa
seria um dogmático.
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