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O FILÓSOFO E SUAS LÁGRIMAS
 

 

A esse respeito, lembremos por que um dos eixos do pensamento de Bento Prado foi por ele mesmo definido como a reflexão sobre “o lugar do sujeito, ou melhor, o problema da ipseidade e de suas formas de expressão”. Contrariamente a uma tendência hegemônica na Filosofia da segunda metade do século 20, não se tratava de compreender a categoria de sujeito como um mero entulho metafísico ou como um resquício de aspirações fundacionistas. Nem discurso sobre a morte do sujeito de matizes pósestruturalistas, nem redução materialista da consciência própria às correntes majoritárias da Filosofia da mente, nem Filosofia neopragmática da

nem intersubjetividade, para a qual a irredutibilidade ontológica do lugar do sujeito é algo próximo de um pathos romântico. Em várias ocasiões, Bento Prado criticou cada uma dessas correntes que hoje organizam o debate das três grandes tradições da Filosofia ocidental: a francesa, a anglo-saxã e a alemã.


No entanto, nas mãos de Bento Prado, o lugar do sujeito transformou-se em uma posição que não responde mais às coordenadas habituais. Longe de ser o solo da transparência e da auto-identidade, tal lugar aparece como desprovido de identidade, clivado. Pois desde sua tese sobre Bergson, ficava claro que a verdadeira preocupação de Bento Prado consistia em perguntar-se sobre o que pode ser uma subjetividade capaz de descobrir o impessoal e o irredutivelmente Outro como seu solo gerador. Ou seja, contrariando uma longa tradição moderna, tratava-se de desvincular sujeito de locus da identidade, isso mediante uma reflexão sobre a alteridade anônima que precede toda constituição da subjetividade, mas com a qual ela deve sempre defrontar-se (um “dever” que não deixa de ressoar exigências éticas).


Era com tal estratégia em mente que Bento Prado se aproximou posteriormente de maneira tão astuta e produtiva de temáticas maiores da Psicanálise e da Estética contemporâneas, duas experiências intelectuais marcadas pela consciência da irrupção violenta do heterogêneo no próprio cerne das relações consigo mesmo. Aproximações que renderam a inauguração, entre nós, de gêneros de reflexão como a Filosofia da Literatura e a Filosofia da Psicanálise.


Só por essa maneira de atualizar a reflexão sobre o conceito de sujeito, Bento Prado já merecia ser, entre nós, objeto de leitura atenta e sistemática. Pois essa sua estratégia lhe permitia construir operações intelectuais surpreendentes como, por exemplo, recorrer a um filósofo para quem “sujeito” é um conceito claramente supérfluo (Deleuze) a fim de reconstruir uma teoria complexa da subjetividade.

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