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Falecido neste ano,
Bento Prado Jr. é referência na formação de
pesquisadores
desde a década de 60
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“Desculpe-me pelas
lágrimas, mas tudo isto
é de cortar o coração.”
Foi com essas palavras, ditas
com voz embargada, que Bento
Prado concluiu há muitos
anos uma de suas aulas para
um pequeno grupo de pós-graduandos.
Nós havíamos ouvido uma
análise cuidadosa sobre o advento
do discurso em primeira pessoa na
Filosofia que o levara a comentar
as primeiras linhas da obra Rousseau,
Juiz de Jean-Jacques. Nesta
hora, diante da escrita dilacerada
de um filósofo que não conseguia
mais se encontrar consigo mesmo,
Bento Prado oferecia o silêncio e
olhos lacrimejantes.
Para alguns de nós, essas lágrimas
irão ressoar sempre. Pois, para
quem havia aprendido Filosofia mediante
a exortação ininterrupta ao
rigor e a desafetação, descobrir que
havia idéias com a força aterradora
de nos fazer chorar era como confrontar-
se com um campo até então
estranho, em que pensamento e vida
não pareciam mais andar em separado.
Um campo diante do qual
nossos esquemas não cessavam de
desabar. Depois de Bento Prado,
ninguém mais teve a coragem de levar-
nos até lá.
Responsável pela formação de
várias gerações de pesquisadores
em Filosofia desde os anos 60, Bento
Prado foi afastado da Universidade
de São Paulo pela ditadura
militar, quando encontrou acolhida
como pesquisador do CNRS-Paris.
Retornando ao Brasil, passou pela PUC, fundou o departamento de Filosofia
da UFSCar e foi professor
emérito da USP. Os que, no decorrer
dessa trajetória, foram seus alunos
sabem que, quando escrevermos o
livro da história da vida intelectual
nacional dos últimos 40 anos, certamente
encontraremos um capítulo
dedicado a um professor que teimava
em colocar seus alunos diante de
uma modalidade de resistência à reflexão
do conceito, de um certo limite à própria prosa da Filosofia; isso
para mostrar como, longe de
representar uma fraqueza da Filosofia,
esse reconhecimento das coisas
que resistem era sua ironia suprema. Maneira de aprender a rir da Filosofia
através da Filosofia.
Sua forma de escrever, privilegiando
o caráter ziguezagueante do
ensaio à sistematicidade das grandes
dissertações, sua indiferença
soberana em relação às fronteiras
intelectuais, que lhe permitia operar
no ponto de interseção entre
Filosofia, Literatura, Psicanálise,
Estética: em todos esses aspectos
encontrávamos a ironia de quem
gostava de repetir a frase do lógico
inglês Alfred North Withehead: “Os
limites da natureza estão sempre
em farrapos”.
Filosofia de farrapos
E se existe algo que Bento Prado
nos tenha ensinado, foi o modo possível
de fazer Filosofia a partir daquilo
que aparece à experiência contemporânea
na condição de “farrapo”:
material descontínuo e aparentemente
irredutível à costura da reflexão.
Dessa forma, o que estava em
gestação no interior de sua experiência
intelectual era uma reflexão em
larga escala a respeito de uma racionalidade
capaz de livrar-se do esquema
rígido da norma e do sistema para
repensar seus procedimentos e
seus modos de escrita a partir do que
parece inicialmente opaco aos procedimentos
conceituais. |