newsletter
 

nome:

e-mail:













 
VOLTAIRE: PROVIDÊNCIA E SUPERSTIÇÃO
 

 

 

Contra a religião utilitária
No texto, a freira aparece apenas para encarnar o alvo a ser atacado: a superstição, a religião e seus pregadores interessados. O metafísico se faz porta-voz de um esforço maior em compreender a grandeza do Ser divino e sua relação com o todo da criação. Ao utilizar a terminologia do Ensaio sobre o Homem (1733) de Alexander Pope, o metafísico não compreende como, na chamada “corrente do ser”, o encadeamento entre a ordem de tudo que existe, um elo queira que todo o conjunto do qual é parte mude para satisfazer seus interesses.


Pedido aos religiosos

Voltaire escreve:
(…) pensem, por favor! Se acreditam que Deus existe e que é também providente, que organizou o universo e escreveu o livro dos destinos, como podem se comportar orando a Deus para pedir favores e não para louvá-lo. Se tudo está escrito, como é possível continuar achando que Deus mude a todo momento sua vontade e a organização do todo para atender aos pedidos de umaínfima parte da criação que é o homem? Não podemos dizer quando algo acontece“era para ser assim mesmo” e continuar a pedir a Deus que nos ajude. Deus está ocupado com as leis gerais da natureza que regulam e movem o universo, não pode mudar tudo a todo momento para satisfazer as particularidades de sicrano ou beltrano.

 

É desse modo que o metafísico apresenta a providência geral divina, expressando claramente um dos pontos centrais da perspectiva de Voltaire: Deus se encarrega de intervir no curso do mundo somente em termos gerais, o que não favorece nem prejudica ninguém individualmente. O metafísico afirma que Deus não está preocupado em atender às nossas demandas.


Contudo, no final das contas, nossa história foi ou não escrita por Deus? Aqui se fazem algumas confusões, agora por parte do metafísico. Se no diálogo houvesse outro personagem, talvez o próprio Voltaire, algumas outras perguntas seriam feitas. Ora, se Deus não se importa com nossos pedidos, estamos completamente desvinculados dele, totalmente livres? Ou, como afirma o metafísico, caso contrário, se Deus tudo planejou nos mínimos detalhes, como fica nossa liberdade? No final das contas, nossa história já foi traçada por Deus ou somos nós que a escrevemos?


O metafísico não parece explicar-se muito bem, mas ao menos não trata a providência de modo assim tão simplista como faz a freira, ela que poderia ser acusada de heresia ao pôr o Ser supremo ao serviço de suas mesquinharias. Não se trata de atacar a Deus, e sim aos pregadores, como o confessor de irmã Fessue; confessor que hoje tanto nos lembra os atuais engravatados pastores televisivos: garantem o favor de Deus, a cura de nossos pardais e a realização de nossos anseios financeiros. Tudo isso mediante a aceitação de Jesus e a doação mensal de uma certa quantia a ser depositada num banco qualquer.


Rodrigo Brandão é tradutor, professor do Departamento de Filosofia da UFPR e doutorando do Departamento de Filosofia da FFLCH-USP.

<< voltar



Copyright © 2005
Escala Educacional