Com bastante bom humor, Saramago
nos sugere algo diferente.
Leva-nos a pensar uma outra Filosofia,
que se esgueirasse por uma
das “intermitências da morte”, sobretudo
pelo medo que ela desperta,
tornando-se uma Filosofia da vida e da alegria. Não uma teoria
que nos preparasse para a morte,
mas que nos ensinasse a viver
afastados da tristeza, que nos tornasse
capazes de pensar na vida,
abraçá-la, deixando de lado os medos
e os pecados.
O que seria tal Filosofia? Qual
seu pilar?
Não quero tirar ao leitor o prazer
da descoberta do final da trama de
Saramago; o seu ponto mais alto e
assombroso. Bastam algumas palavras
sobre seu significado.
Uma narrativa vigorosa propõe a
inversão, literal, do sistema de valores
das religiões e Filosofias da morte;
uma espécie de elogio daquilo a
que até a morte se rende: o desejo. A
rendição da morte... onde já se viu
isso?! Ora, espantoso de verdade é
justamente como a vida vence a
morte. Ela não o faz pela busca de
alguma imortalidade noutro mundo,
mas por aquilo que é mais seu,
pela manifestação vital básica sempre
condenada por todos os adversários
da vida e amigos da morte: o
desejo. Só este é capaz de enlaçar a
morte, enredá-la e neutralizá-la como
obstáculo à vida.
Ao final do livro de Saramago
descobrimos que a fantasia em
torno da morte e de suas intermitências
sugere outro horizonte, a
possibilidade de uma nova concepção
de mundo, quase uma outra
cultura. No seio desta, uma nova
Filosofia que – diferentemente
daquelas baseadas no mundo da
morte e parceiras das religiões –,
possa insinuar-se como Filosofia
da vida ou, o que dá no mesmo, Filosofia
do desejo.
Homero Santiago é professor de Filosofia da
FFLCH-USP.
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