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Todas as religiões, argumenta
um teólogo, “não têm outra justificação
para existir que não seja a morte.”
Elas existem “para que as pessoas
levem toda a vida com o medo
pendurado ao pescoço e, chegada a
sua hora, acolham a morte como
uma libertação”. Logo, o desaparecimento
da morte deixa as religiões
sem função. O mesmo valeria para a
Filosofia, que de acordo com um filósofo
da comissão, “precisa da morte
como as religiões; se filosofamos é
por saber que morreremos”.
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Por fim,
cita o famoso dito do francês Michel
de Montaigne (1533-1592): “filosofar
é aprender a morrer”.
Ora, no que se refere à religião
não parece difícil acatar o ponto de
vista. Por experiência própria sabemos
que o medo da morte (e sua
extensão: a promessa de uma vida
pós-morte) é a grande força dos religiosos.
Assim, por exemplo, é
muito comum a um crente que
busca convencer um ateu o recurso à morte: “na hora do ‘vamos ver’,
você vai chamar por Deus”. Quantas
vezes não ouvimos isso! Quer
dizer, no momento capital e inevitável
da morte, até os descrentes,
levados pelo medo, descobririam a
verdade da religião.
Que a religião seja assim, que
sua verdade se revele preferencialmente
na morte e na tristeza mais
profunda, podemos entender. Mas
Saramago tem razão em sugerir o
mesmo para a Filosofia?
De fato, as relações entre Filosofia
e religião são tão antigas quanto
o pensamento filosófico, cujo nascimento
se costuma datar do século
7 a.C. Com o advento do cristianismo
e seu império sobre o Ocidente,
ao longo de vários séculos, a Filosofia
muitas vezes chegou a assumir
como suas questões que inicialmente
eram da alçada da fé. Mesmo
quando a Filosofia tomou formas
que se apregoavam inteiramente
racionais, ela travestiu-se de religião;
no limite, forjou-se até a idéia
de uma religião racional, filosoficamente
engendrada, que pudesse
substituir as religiões tradicionais,
calcadas no irracional. Essa religião
filosófica, à imitação das tradicionais,
também poderia nos trazer o
paraíso e inculcar valores; em particular,
poderia trazer apaziguamento
ao medo da morte: aceitá-la seria
bom, e estar preparado, perfeito.
O custo disso não foi pequeno:
era preciso que a Filosofia ganhasse
uma coloração um pouco sombria,
como a das religiões, especializandose
na morte e nas tristezas. Se as religiões
nascem do medo da morte,
uma Filosofia que cumprisse tarefas
religiosas só poderia fundar-se no
mesmo medo. São aquelas filosofias
que querem nos dizer o que é o certo
e o errado, apelando para alguma razão
ou ordem das coisas que estaria
acima de nosso mundo; as que, pelaânsia de descobrir a eternidade em
algo a que chamam “alma”, terminam
por negar este mundo e todas
as suas manifestações.
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