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A MORTE É O PONTO DE PARTIDA
 

 

 

 

Recente livro de Saramago questiona estruturas da religião e da
Filosofia a partir do significado que ambas atribuem ao fim da vida


N
ada nos assusta tanto quanto a morte, e o medo que ela desperta talvez seja o mais universal dos sentimentos. Não sabemos quando, onde e como, mas certamente morreremos; todo homem morre, os homens sempre morreram e morrerão. A longa e inevitável convivência dos homens com o fim da vida é causa do maior dos seus temores.


Entre os gregos antigos, morrer constituía quase um signo da humanidade, um traço geral que, para além das línguas, dos povos e todos os outros fatores particularizantes, permitia designar todos os homens em geral. Em contraposição aos deuses, que não morriam e eram imortais, os homens eram chamados de mortais. Ainda hoje, a morte é chamada“a indesejada das gentes”.


Mas o que seria a vida sem o seu final? O que aconteceria se, de uma hora para outra, os homens parassem de morrer? O que pode significar não morrer? É a meditação sobre tais questões que constitui a substância do romance do prêmio Nobel de Literatura em 1998, o português José Saramago, intitulado Intermitências da Morte (Companhia das Letras, 2005).

 

“No dia seguinte ninguém morreu”. O cenário que o leitor depara já à primeira linha é inusitado, pois “contrário às normas da vida”: de repente, num país qualquer, simplesmente não se morre mais. O curioso é que o ocorrido, que à primeira vista poderia prenunciar um tempo feliz, ou antes, uma eternidade feliz
daquelas pessoas que não mais morreriam, provoca as maiores tribulações e desarranjos; a ponto de muitos desejarem que se volte a morrer naquela terra. Com perdão do arranjo de palavras, a ausência da morte torna a vida funesta.


Deixemos de lado os aspectos do grande negócio da indústria da morte (hospitais, seguradoras, funerárias etc.) estremecido pela imortalidade repentina. Apesar da força sarcástica das descrições de Saramago, o interesse filosófico de sua obra reside mais no fato de nos despertar para o quanto estão baseados na morte não só aspectos socioeconômicos mas também nossa visão de mundo mais profunda. A morte vai surgindo aos poucos como o fator determinante de nossa cultura, de nossa civilização e, especialmente, de duas de suas maiores manifestações: a religião e a Filosofia.


Com o fim da morte, toda a vida precisa ser repensada. Por isso, o Governo do país em que não mais se morre convoca uma comissão interdisciplinar composta de filósofos e teólogos de vários credos para discutir o assunto. As opiniões divergem, mas um curioso consenso desponta ao longo do debate: sem a morte, tanto a religião quanto a Filosofia estão condenadas ao desaparecimento.

 

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