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Para o polêmico pensador francês,
a crença na inexistência de Deus
é a
salvação para o homem
viver mentalmente são,
com liberdade e senso crítico
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Podemos dizer do ateísmo
propriamente filosófico muitas
coisas, menos que todo
ateu é à-toa. Podemos dizer,
por exemplo, que o ateísmo é uma
elaboração teórica, um conceito,
uma tese metafísica, uma hipótese
cosmológica, uma conjectura ontológica
ou simplesmente uma doutrina;
é possível afirmar também, de
modo geral, que o ateísmo é uma
corrente de pensamento, um dogma
ou até mesmo uma crença; mas
de forma alguma o ateísmo consiste
numa religião ou – o que é pior – em
outra espécie de “teologia”.
Há duas maneiras de ser ateu.
De acordo com o francês André
Comte-Sponville (1952-), no seu Dicionário
Filosófico, uma delas é não
crer em Deus, a outra, crer que Deus
não existe. No primeiro caso, temos
uma ausência de crença (ausência
de Deus) que Comte-Sponville define
como “ateísmo negativo”; já no
segundo caso, temos uma crença
numa ausência (negação de Deus),
posição que o filósofo classifica de“ateísmo positivo ou militante”.
Não podemos nos esquecer daqueles
que não crêem nem desacreditam
na existência de uma ou várias
divindades; estes, em face dos infindáveis
debates entre ateus e religiosos,
acabam não optando por uma
tese nem por outra, suspendendo
assim seus julgamentos. Estamos falando
dos agnósticos ou céticos.
Nesse sentido, tanto os ateus
quanto seus adversários religiosos –
sejam eles teístas, místicos, esotéricos
ou deístas – seriam, cada um a
seu modo, crentes, com exceção talvez
dos ateus negativos, os quais estariam
próximos do agnosticismo.
O fato de terem convicções e de
proporem uma doutrina, porém,
não faz dos ateus religiosos nem do ateísmo uma religião, visto que nem
toda doutrina metafísica é necessariamente
uma religião, mesmo que
os ateus sejam dogmáticos na negação
da existência de uma causa
criadora do universo; tampouco parece
adequado considerá-los mentores
de uma nova teologia.
Embora expressem discursos especulativos
essencialmente metafísicos,
ateus e religiosos representam
o confronto de crenças e dogmas absolutamente
antagônicos: de um lado,
a convicção pétrea numa força
superior e sobrenatural que deu início
e sentido a tudo; do outro, a idéia
da ausência de uma criação, a hipótese
da eternidade da matéria, a gratuidade
e, conseqüentemente, a falta
de sentido ou o sentido absurdo da
existência humana. O absoluto na
forma de Deus ou na forma do Nada.
Ateísmo e teísmo seriam então
as duas faces antípodas do absoluto.
Portanto, o ateísmo não seria
uma nova teologia só porque propõe
um absoluto (o Nada, metafisicamente
entendido), mas sim a sua
veemente negação, uma antiteologia
ou ateologia.
O filósofo francês Michel Onfray
encarna como ninguém na atualidade
esse “ateísmo positivo ou militante”
do qual nos fala o também deicida
Comte-Sponville. A propósito,
Onfray é autor do livro Tratado de
Ateologia, best-seller que vendeu,
em 2005, mais de 170 mil exemplares
só na França.
A polêmica suscitada pela obra
foi tanta, que, além das inúmeras
ameaças de morte feitas por fiéis
dos três monoteísmos reinantes no
mundo fustigados pelo livro, até
um antitratado de ateologia foi lançado
em resposta. |