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O ATEÍSMO MILITANTE DE MICHEL ONFRAY
 

 

Para o polêmico pensador francês, a crença na inexistência de Deus
é a salvação para o homem
viver mentalmente são,
com liberdade e senso crítico


P
odemos dizer do ateísmo propriamente filosófico muitas coisas, menos que todo ateu é à-toa. Podemos dizer, por exemplo, que o ateísmo é uma elaboração teórica, um conceito, uma tese metafísica, uma hipótese cosmológica, uma conjectura ontológica ou simplesmente uma doutrina; é possível afirmar também, de modo geral, que o ateísmo é uma corrente de pensamento, um dogma ou até mesmo uma crença; mas de forma alguma o ateísmo consiste numa religião ou – o que é pior – em outra espécie de “teologia”.


Há duas maneiras de ser ateu. De acordo com o francês André Comte-Sponville (1952-), no seu Dicionário Filosófico, uma delas é não crer em Deus, a outra, crer que Deus não existe. No primeiro caso, temos uma ausência de crença (ausência de Deus) que Comte-Sponville define como “ateísmo negativo”; já no segundo caso, temos uma crença numa ausência (negação de Deus), posição que o filósofo classifica de“ateísmo positivo ou militante”.


Não podemos nos esquecer daqueles que não crêem nem desacreditam na existência de uma ou várias divindades; estes, em face dos infindáveis debates entre ateus e religiosos, acabam não optando por uma tese nem por outra, suspendendo assim seus julgamentos. Estamos falando dos agnósticos ou céticos.

 

Nesse sentido, tanto os ateus quanto seus adversários religiosos – sejam eles teístas, místicos, esotéricos ou deístas – seriam, cada um a seu modo, crentes, com exceção talvez dos ateus negativos, os quais estariam próximos do agnosticismo.


O fato de terem convicções e de proporem uma doutrina, porém, não faz dos ateus religiosos nem do ateísmo uma religião, visto que nem toda doutrina metafísica é necessariamente uma religião, mesmo que os ateus sejam dogmáticos na negação da existência de uma causa criadora do universo; tampouco parece adequado considerá-los mentores de uma nova teologia.


Embora expressem discursos especulativos essencialmente metafísicos, ateus e religiosos representam o confronto de crenças e dogmas absolutamente antagônicos: de um lado, a convicção pétrea numa força superior e sobrenatural que deu início e sentido a tudo; do outro, a idéia da ausência de uma criação, a hipótese da eternidade da matéria, a gratuidade e, conseqüentemente, a falta de sentido ou o sentido absurdo da existência humana. O absoluto na forma de Deus ou na forma do Nada.


Ateísmo e teísmo seriam então as duas faces antípodas do absoluto. Portanto, o ateísmo não seria uma nova teologia só porque propõe um absoluto (o Nada, metafisicamente entendido), mas sim a sua veemente negação, uma antiteologia ou ateologia.


O filósofo francês Michel Onfray encarna como ninguém na atualidade esse “ateísmo positivo ou militante” do qual nos fala o também deicida Comte-Sponville. A propósito, Onfray é autor do livro Tratado de Ateologia, best-seller que vendeu, em 2005, mais de 170 mil exemplares só na França.

 

A polêmica suscitada pela obra foi tanta, que, além das inúmeras ameaças de morte feitas por fiéis dos três monoteísmos reinantes no mundo fustigados pelo livro, até um antitratado de ateologia foi lançado em resposta.

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