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A “Morte de Deus”
Segundo Nietzsche, porém, não há uma verdade. Existem diferentes perspectivas por
meio das quais se pode examinar o mundo. De acordo com o filósofo alemão, niilistas eram
os filósofos – que atribuíam supremo valor à razão e que negavam outras dimensões do
homem como, por exemplo, a vontade e a emoção – e os cristãos – que inibiram o desejo
pela vida terrena, considerando-a ilusão, e estabeleceram um mundo transcendente como
sendo “o” mundo verdadeiro e “a” finalidade da vida terrena.
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Quando essas “ilusões” construídas pela tradição começam a ser abaladas, principalmente
pela base materialista do pensamento científico, Nietzsche detecta outro momento
do niilismo: o sentimento do nada – o “abismo do nada”, criado pelo vazio da
eliminação do transcendente, pela “morte de Deus”.
Na história humana recente, alguns valores ganharam força e substituíram os tradicionais.
Entre eles alinham-se, por exemplo, os valores coletivos propostos pelas correntes socialistas
e democráticas que prezam a igualdade, assim como os valores abstratos de nação e de
progresso. Todos esses foram considerados por Nietzsche como niilistas, à medida que foram
absolutizados e adquiriram vida própria, desvinculando-se do elemento que lhes dá sentido:
o próprio ser humano. De acordo com Nietzsche, esses novos valores, como os antigos, foram
postos de modo a contrariar as possibilidades de fortalecimento do homem individual.
No século 20, após o legado de Nietzsche, muitos filósofos, como Martin Heidegger
(1889-1976), procuraram responder à pergunta sobre o ser humano, e buscaram meios
para enfrentar o desafio de encontrar um lugar para ele neste mundo da técnica.
Heidegger identificou a técnica com o niilismo. Segundo o filósofo, o saber técnico
como modo de abordar as coisas acaba por tomar também o homem como coisa, “imanência
desprovida de sentido”. Ou seja, a técnica torna o homem disponível para um
sentido posto por outros, não por ele próprio. A crítica de Heidegger aponta para a manipulação
do homem em favor de interesses que nada têm a ver com a liberdade humana,
e que tornam sua existência vazia de sentido, um nada.
Maria Letícia de Paiva Jacobini é graduada em Ciências Sociais e mestre em Ética pela
PUC-Campinas e especialista em Antropologia Social pela Unicamp.
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