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O PENSADOR TRANSVERSAL
 

 

 

A condição das ciências

 

Em As Palavras e as Coisas, o pensador elabora o conceito de
episteme como a ordenação dos saberes em determinada época


 

A principal obra epistemológica de Michel Foucault – ou que trata de nossas relações com o saber –, como ele próprio destacou no trecho anteriormente citado, é As Palavras e as Coisas, publicada em 1966. Em 1969, como resposta às múltiplas críticas que recebeu, ele publicou A Arqueologia do Saber, discutindo a metodologia utilizada na construção do livro anterior. Essas questões também estão presentes em sua aula inaugural no Collège de France, publicada em 1971 com o título A Ordem do Discurso, e no curso Em Defesa da Sociedade, especialmente na aula de 25 de fevereiro de 1976, em que aborda o problema do disciplinamento dos saberes na universidade francesa no século 18.


As Palavras e as Coisas é uma obra de rigor e de erudição. Muito influenciado pela Lingüística e pelo Estruturalismo, porém sem ser lingüista nem estruturalista, Foucault dedica-se a estudar as diferentes formas históricas de articular as coisas – a realidade, se preferirmos – com os discursos sobre as coisas, isto é, as palavras, para traçar aquilo que denomina de “arqueologia das Ciências Humanas”. É um livro marcado pelos debates teóricos do momento, dialogando criticamente com o Marxismo e com a Psicanálise, duas forças teóricas então muito vivas na França.


Ordem intrínseca
Ao introduzir o conceito de episteme, Foucault se afasta, a um só tempo, do Estruturalismo – corrente que defende que as estruturas determinantes da sociedade são anistóricas – e do Marxismo –, segundo o qual a compreensão da realidade social só pode ser feita pelo recurso à História.

 

Foucault afirma que cada época histórica possui sua própria episteme, o solo do qual emergem os saberes, que ao mesmo tempo é sua condição de possibilidade e também sua conformação. Ao produzir esse conceito, Foucault foi identificado pelos marxistas com o Estruturalismo – inclusive pela importância que dava à linguagem –, embora introduzisse ali o elemento histórico, estranho ao Estruturalismo clássico.


Já no prefácio de As Palavras e as Coisas, Foucault argumentava que buscar a episteme de determinadaépoca significa buscar a ordem intrínseca, a lógica interna que permite a emergência dos saberes, formando uma base sólida e coerente sobre a qual se erige todo o arcabouço de saber daquela determinada época. Não podemos, portanto, confundir episteme com saber; ela é anterior aos saberes e sua condição de possibilidade. Ela se constitui numa forma de ordenação histórica dos saberes, independente da ordenação dos discursos e dos critérios de cientificidade; ao contrário, ela é a própria condição desses critérios e discursos.

 

Não basta, portanto, produzir uma história dos saberes, nem seria possível proceder a uma historicização das epistemes, uma vez que fazer a história de alguma coisa já pressupõe uma ordem dos saberes e dos discursos, isto é, uma episteme. Por outro lado, os processos de gênese de determinada episteme, assim como seu ocaso e a emergência de uma nova ordenação dos saberes, nem sempre constituem um processo linear. Assim, Foucault afirma ser necessário um procedimento arqueológico do pesquisador, de modo a buscar os elementos que possam ser articulados entre si, fornecendo-nos um panorama coerente das condições de produção do saber em determinada época.

 

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