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O PENSADOR TRANSVERSAL
 

 

Dois tipos de livro
Numa entrevista concedida em 1982 na Universidade de Vermont, nos Estados Unidos (publicada sob o título Verdade, Poder e Si Mesmo, no quinto volume da edição brasileira dos Ditos e Escritos), Foucault nos oferece uma visão perspectiva bastante interessante de sua obra. Sobre os livros que escreveu, afirmou:


Escrevi dois tipos de livro. Um, As Palavras e as Coisas, tem exclusivamente como objeto o pensamento científico; o outro,Vigiar e Punir, tem como objeto as instituições e os princípios sociais. A história da Ciência experimentou um desenvolvimento diferente daquele da sensibilidade. Para ser reconhecido como discurso científico, o pensamento deve corresponder a certos critérios. Em Vigiar e Punir, textos, práticas e indivíduos se confrontam.


Mais adiante, finaliza a entrevista com um interessante balanço:

 

Os problemas que estudei são os três problemas tradicionais. 1) Que relações mantemos com a verdade por meio do saber científico, quais são nossas relações com esses “jogos de verdade” tão importantes na civilização, e nos quais somos simultaneamente sujeitos e objetos? 2) Que relações mantemos com os outros, por meio dessas estranhas estratégias e relações de poder? Por fim, 3) quais são as relações entre verdade, poder e si mesmo?

 

Gostaria de concluir a entrevista com uma pergunta: o que haveria de mais clássico do que essas questões e de mais sistemático do que passar da questão um à questão dois e à questão três para voltar à questão um? É justamente nesse ponto que me encontro.


Foucault mostra-se nessa entrevista como um pensador “clássico e sistemático”, alguém que se interroga, de maneira profunda, pela questão de nossa relação com o saber, de nossa relação com os outros e conosco mesmos. Em termos disciplinares, que ele não chega a usar, pode-se dizer que produziu estudos de Epistemologia, de Política e de Ética, nessa ordem, mas evidenciando que da Ética deveria retornar para a Epistemologia. Obedecendo a sua própria indicação, vamos traçar a seguir suas contribuições para esses campos.

 

BIOGRAFIA:
O DESLOCAMENTO COMO MISSÃO


Paul-Michel Foucault nasceu em Poitiers, França, em 15 de outubro de 1926 e morreu em 25 de junho de 1984, em Paris. Seu pai, Paul Foucault, era médico e professor de Anatomia na Escola de Medicina. Sua mãe, Anne Malapert, era filha de um médico e professor de Medicina. Foi educado, portanto, no seio de uma família de médicos.
Contrariando o desejo do pai de que seguisse seus passos, graduou-se em Filosofia pela École Normale Supérieure em 1948; mas estudou também Psicologia, História e Medicina. Foi professor nas Faculdades de Letras e Ciências Humanas de Clermont-Ferrand e Tunez.
No final da década de 60, Foucault foi o responsável pela criação do Departamento de Filosofia da Universidade de Paris-Vincennes, então centro experimental, criada depois das reivindicações dos estudantes no maio de 1968. Para esse departamento, levaria Gilles Deleuze e François Châtelet, além de uma nova geração de filósofos, como Jacques Rancière, Alain Badiou, Judith Miller e Étienne Balibar. De 1970 até sua morte, foi o responsável pelo ensino de História dos Sistemas de Pensamento no Collège de France, ocupando a cadeira que havia sido de seu mestre, Jean Hyppolite.
Mas Foucault não foi apenas o intelectual preocupado com os dispositivos de poder e normalização social. Foi também ativo militante. Célebre foi sua participação no Grupo de Informação sobre Prisões (GIP) dentre outras manifestações, por exemplo, contra as instituições psiquiátricas. Aliás, para ele, intelectual e militante eram um só: sonho com o intelectual destruidor das evidências e das universalidades, que localiza e indica nas inércias e coações do presente os pontos fracos, as brechas, as linhas de força; que sem cessar se dSSesloca, não sabe exatamente onde estará ou o que pensará amanhã, por estar muito atento ao presente, como afirmou em uma de suas entrevistas.

 

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