Estímulo da curiosidade
A partir daí, nos concentramos em Ângela. Discutimos como seria viver abandonada pelo noivo e considerada culpada
pela morte de Santiago. Pensamos como seria sua vida a partir daquele momento na cidade. Procurei ajudá-los a
refletir sobre as situações vivenciadas pela noiva abandonada, sua relação com a família e a sociedade.
Com o tempo, Ângela passa a escrever cartas a Bayardo. São cartas de amor. Questionei por
que ela fazia isso? As respostas dos alunos variavam: uns achavam que ela o amava, outros afirmaram
que ela escrevera por se sentir solitária ou para simplesmente desabafar. De repente toca
o sinal. A aula acabou. Mas a curiosidade era tão grande, que os alunos me suplicavam para
acabar a história ou, ao menos, revelar o final. Observei neles um forte desejo de saber. E o saberé a porta de entrada para a Filosofia.
Começa a aula seguinte e continuo a história. Por aproximadamente 20 anos, Ângela escreveu
a Bayardo sem receber nenhuma resposta. Certo dia, ela sentia o vento soprar na casa que ele
havia comprado para viverem juntos, quando inesperadamente dezenas e dezenas de cartas
foram arrastadas pelo vento até seus pés. Ela pega uma dessas correspondências: eram as
cartas escritas ao antigo noivo. Surpreendentemente, Bayardo aparece, olha-a nos olhos, e
acaba por abraçar e beijar Ângela.
Pude então lhes dizer que desse modo opera a Filosofia. Começa pela investigação de
uma causa, e no decorrer dessa procura depara com inúmeras situações que exigem reflexão. E
que é uma necessidade da Filosofia a investigação, o desejo de saber o porquê das coisas. Assim como
o jornalista e o detetive, por exemplo.
O resultado obtido por parte dos alunos foi muito bom. O objetivo de causar uma primeira impressão
atraente em relação à Filosofia foi satisfeito. Em todos os momentos, eles se detiveram na perscrutação dos
fatos e suas implicações; depois, foram capazes de sistematizar a história, capturar seu sentido e sugerir as
razões que resultaram na morte de Santiago. Entraram na Filosofia pela curiosidade.
Gabriel Bistafa é bacharelando e licenciando em Filosofia pela USP e professor
da E.E. Professor Oswaldo Walder.
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