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Numa dimensão individual, a
neurose pode manifestar-se sob a
forma de obsessões, fobias, histeria,
delírios de grandeza, melancolia. Num plano coletivo, pode também
estar subjacente aos movimentos tão
em voga hoje, como o fanatismo religioso,
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a xenofobia, como também ao
imperialismo e mesmo à guerra.
O Abandono
O grande impacto da provocação
freudiana tem, portanto, uma dupla
face, pois não implica apenas a inserção
de uma nova forma de conceber
o homem. Afinal de contas, Freud
não disse muito mais do que já havia
sido dito por pensadores ilustres como
Platão, que admitiu o poder de
Eros sobre o conhecimento e a vida;
por Aristóteles, que identificou o caráter
desejante de todas as ações humanas;
por Schopenhauer, que alertou
para a primazia da Vontade em
face do mundo da representação; por
Nietzsche –, e, de certo modo, por todo
o movimento romântico emergente
no século 19 –, ambos em franca
oposição ao Iluminismo, que revisitou
a dimensão trágica do humano e
apontou para uma porção obscura
de nós mesmos, que se revela e se
oculta e resvala à compreensão.
A propagação do freudismo às raias
da vulgarização mostra, antes de
mais nada, que neutralizamos o efeito
de seu empreendimento na medida
mesma em que o difundimos.
Com isso, tentamos impedir que o
verdadeiro resultado de sua empresa
nos atinja e nos obrigue a repensar,
com todo o ônus que uma autocrítica
radical acarreta, o alto preço que pagamos
no plano individual e coletivo
por escolhermos ser como somos,
pela civilização que construímos.
Não é sem razão, portanto, que
na alvorada do novo século as terapias
medicamentosas e os avanços
da neurociência (cujo objetivo em
alguns casos é reduzir as explicações
sobre o comportamento humano a
descrições bioquímicas) venham
afastando cada vez mais o procedimento
inaugurado por Freud – a Psicanálise – dos consultórios e dos
departamentos de Medicina e Psicologia,
amplamente respeitados
hoje por uma sociedade inebriada
pela Ciência e pela tecnologia.
Num mundo em que os antidepressivos,
antipsicóticos, ansiolíticos
e as terapias de auto-ajuda tentam
substituir a genuína possibilidade
de redescrição de nós mesmos
proposta pela Psicanálise, não parece
sem razão que o pensamento de
Freud tenha sido mais bem acolhido
nos círculos literários e, não sem
surpresa, no rol dos filósofos.
Maria Aparecida de Paiva Montenegro é
professora do departamento de Filosofia da
Universidade Federal do Ceará e autora do livro
Pulsão de Morte e Racionalidade no Pensamento
Freudiano (Edições UFC, 2002).
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