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O REVÉS DA PSICANÁLISE
 

 



Apesar de influenciar gerações
e ser um referencial teórico,
hoje Freud é mais popular nos círculos filosóficos e literários


S
igmund Freud (1856-1939) influenciou de forma definitiva o século 20. Entre tantos mestres do pensamento filosófico, da Ciência e da Literatura desse rico período, o pai da Psicanálise talvez tenha sido aquele que mais se destacou no que se refere a atingir não só um público especializado – abarcando diferentes áreas do conhecimento –, como também uma legião de leigos. Assim, percorreu um sinuoso caminho que, do sublime, tem esbarrado inadvertidamente no vulgar.


Com efeito, a letra freudiana foi submetida não somente a rigorosas inspeções filosóficas, provenientes das mais diferentes tradições – da Filosofia continental à Filosofia analítica–; foi também duramente criticada e parcialmente assimilada por vertentes distintas da Psiquiatria e Psicologia, inspirou movimentos artístico-literários como o surrealismo, penetrou no Cinema tanto a partir das densas temáticas do cineasta sueco Ingmar Bergman quanto das comédias filosóficas de Woody Allen, sendo também capturada nas tramas comerciais hollywoodianas; por fim, foi enredada pela mídia, tanto nas telenovelas quanto nas propagandas de absorventes, automóveis, cigarros e bebidas.

 

Freud veio a ser também o grande mentor de movimentos de libertação sexual que caracterizaram a segunda metade do século passado, mudando a compreensão do comportamento de crianças, jovens e adultos. Desse modo, não parece possível que hoje alguém minimamente inserido em um desses canais culturais não tenha deparado com algum comentário ou algum termo proveniente do vocabulário psicanalítico: trauma de infância, repressão sexual, desejo inconsciente, complexo de Édipo, para citar apenas os mais conhecidos. Somos, assim, herdeiros do legado freudiano que, bem ou mal difundido, passou a fazer parte de nossas explicações acerca de nós mesmos e de nossos atos anteriormente incompreensíveis.

 

O preço da civilização
Todavia, Freud não somente ampliou o âmbito de nossa racionalidade, mostrando que sintomas psicopatológicos, sonhos e atos falhos, até então considerados irracionais, eram igualmente dotados de uma intencionalidade. Ele também tocou na ferida de nossa civilização, provocada e escondida por uma arrogância sustentada, por sua vez, em uma inabalável fé nas potencialidades humanas (sobretudo a partir da revolução científica e do conseqüente avanço da tecnologia).


O gênio de Freud evidenciou o revés de uma sociedade construída sobre a noção de progresso, a partir de uma perspectiva contratualista (o contrato social é uma concepção característica do pensamento moderno e pressupõe que a sociedade seja fundada a partir de uma espécie de pacto, no qual o atendimento das demandas individuais é submetido aos interesses da coletividade).


O alto preço dessa renúncia requerida pela civilização é justamente a neurose, seja a de fundo edípico (vinculada ao complexo de Édipo, que pode ser suposto como conjunto de representações envolvidas no processo de internalização da moral), seja a de cunho narcísico (esta mais conhecida como psicose, que remete a transtornos relativos a uma organização psíquica ainda mais arcaica que o complexo de Édipo: o narcisismo, também entendido como uma construção ilusória, porém necessária à constituição psíquica, na qual o eu ocupa um plano privilegiado para o qual convergem todos os interesses do indivíduo).

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