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O conceito de totalidade que
Lévinas critica é aquele cuja tendência
é englobar toda diferença na imanência
do pensar. Ou seja, tudo o
que penso passa a fazer parte do
meu mundo, torna-se minha propriedade. |
A razão – leia-se: Hegel –
alega ter o poder de submeter tudo
ao seu conhecimento e às suas formas
de representação do real. Tudo
se converte à razão uma vez que o
real é racional e o racional é real.
Trata-se de uma lógica capaz de dar
conta do todo da realidade, de sua
infinita multiplicidade e dinamicidade.
O pensamento tudo abarca e em
tudo domina a razão. Eis a totalidade.
Nela tudo pode ser apreendido
pelo conceito. E o conceito é algo que
se pode agarrar, como um objeto.
No entanto, o outro sempre dispõe
de força capaz de resistir à tentativa
de quem pretenda conhecê-lo,
pois recusa-se à posse, aos meus, aos
nossos poderes. O outro se recusa ao
totalitarismo do eu e da razão que
busca converter tudo para si.
Assim, o outro – e não o eu, como
pensou Kierkegaard – recusa-se, resiste
ao sistema e não se deixa subjugar
pela lógica dialética do pensamento.
Kierkegaard salvaguardou a
interioridade da subjetividade do
sistema, mas conservou-a sob uma
tensão natural de ser sobre si própria,
preocupada com seu “segredo
interior”, com sua salvação.
Rosto e infinito
Lévinas coloca, diferentemente
de Kierkegaard, o eu em discussão
não a partir de dentro, mas a partir
de fora. Explosão, e não implosão, do
sistema que se traduz pela impossibilidade
do pensamento em reduzir
a alteridade à totalidade. O outro é absolutamente outro. Há nele algo
que nos escapa, por mais que o decifremos
e o tematizemos. Há nele um
mistério infindável e maior. E nada
pode transpor sua alteridade mesma,
pois ela não está ao alcance do
nosso olhar, não está exposta à luz
como um fenômeno qualquer. Esse
algo a mais do objeto que não se
adapta às formas da cognição nos remete à idéia do infinito.
Ter a idéia do infinito consiste
em travar uma relação com aquilo
que extravasa o pensamento e que
de forma alguma se pode mensurar.
Pensar no infinito, pois, não é
pensar num objeto e sim na desmedida
do objeto, no seu excesso.
Diferentemente de Descartes, o infinito
não surge como um pressuposto
metodológico abstrato, matemático
e formal, mas antes se
apresenta na figura do próximo
que se aproxima: o rosto alheio.
O rosto é a expressão original do
infinito, significa-o. Infinito no finito.
No rosto do outro, que face a face me
olha, o infinito enquanto tal revela-se,
vem até mim – como uma idéia que o
pensamento não pode produzir por si
próprio – e me fala. É um ordenamento
moral, palavra proferida a mim no
encontro: “não matarás”. O “não matarás”
surge pelo fato de que estou
diante de um maior do que eu e a
quem, portanto, devo reverência. Ele é
maior, apesar de sua vulnerabilidade.
Maior que eu
Eis um paradoxo. Ele é um excluído:
um pobre, um órfão, uma viúva...
O outro é infinitamente maior do
que eu e, por isso, meu pensamento
não pode comportá-lo nem compreendê-lo. A grandeza desse estranho
outro que se aproxima e me fala
demanda uma resposta. E tal exigência
não admite qualquer resposta,
indiferente, um “tanto faz”, como o
faria o personagem Mersault, de Camus.
Responder é tornar-se responsável
por aquele que se me pôs à frente e falou. E essa é uma condição
de possibilidade sem esquiva possível. É a não-indiferença.
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