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EMMANUEL LÉVINAS: ÉTICA E ALTERIDADE
 

 

O conceito de totalidade que Lévinas critica é aquele cuja tendência é englobar toda diferença na imanência do pensar. Ou seja, tudo o que penso passa a fazer parte do meu mundo, torna-se minha propriedade.

A razão – leia-se: Hegel – alega ter o poder de submeter tudo ao seu conhecimento e às suas formas de representação do real. Tudo se converte à razão uma vez que o real é racional e o racional é real. Trata-se de uma lógica capaz de dar conta do todo da realidade, de sua infinita multiplicidade e dinamicidade. O pensamento tudo abarca e em tudo domina a razão. Eis a totalidade. Nela tudo pode ser apreendido pelo conceito. E o conceito é algo que se pode agarrar, como um objeto.


No entanto, o outro sempre dispõe de força capaz de resistir à tentativa de quem pretenda conhecê-lo, pois recusa-se à posse, aos meus, aos nossos poderes. O outro se recusa ao totalitarismo do eu e da razão que busca converter tudo para si.

 

Assim, o outro – e não o eu, como pensou Kierkegaard – recusa-se, resiste ao sistema e não se deixa subjugar pela lógica dialética do pensamento. Kierkegaard salvaguardou a interioridade da subjetividade do sistema, mas conservou-a sob uma tensão natural de ser sobre si própria, preocupada com seu “segredo interior”, com sua salvação.


Rosto e infinito
Lévinas coloca, diferentemente de Kierkegaard, o eu em discussão não a partir de dentro, mas a partir de fora. Explosão, e não implosão, do sistema que se traduz pela impossibilidade do pensamento em reduzir a alteridade à totalidade. O outro é absolutamente outro. Há nele algo que nos escapa, por mais que o decifremos e o tematizemos. Há nele um mistério infindável e maior. E nada pode transpor sua alteridade mesma, pois ela não está ao alcance do nosso olhar, não está exposta à luz como um fenômeno qualquer. Esse algo a mais do objeto que não se adapta às formas da cognição nos remete à idéia do infinito.


Ter a idéia do infinito consiste em travar uma relação com aquilo que extravasa o pensamento e que de forma alguma se pode mensurar. Pensar no infinito, pois, não é pensar num objeto e sim na desmedida do objeto, no seu excesso. Diferentemente de Descartes, o infinito não surge como um pressuposto metodológico abstrato, matemático e formal, mas antes se apresenta na figura do próximo que se aproxima: o rosto alheio.


O rosto é a expressão original do infinito, significa-o. Infinito no finito. No rosto do outro, que face a face me olha, o infinito enquanto tal revela-se, vem até mim – como uma idéia que o pensamento não pode produzir por si próprio – e me fala. É um ordenamento moral, palavra proferida a mim no encontro: “não matarás”. O “não matarás” surge pelo fato de que estou diante de um maior do que eu e a quem, portanto, devo reverência. Ele é maior, apesar de sua vulnerabilidade.


Maior que eu
Eis um paradoxo. Ele é um excluído: um pobre, um órfão, uma viúva... O outro é infinitamente maior do que eu e, por isso, meu pensamento não pode comportá-lo nem compreendê-lo. A grandeza desse estranho outro que se aproxima e me fala demanda uma resposta. E tal exigência não admite qualquer resposta, indiferente, um “tanto faz”, como o faria o personagem Mersault, de Camus. Responder é tornar-se responsável por aquele que se me pôs à frente e falou. E essa é uma condição de possibilidade sem esquiva possível. É a não-indiferença.

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