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OLHOS NOS OLHOS DA MORTE
 

 

 

Sobre situações de perigo vale a pena aprender as lições de Montaigne e encarar o inevitável de frente


A
lguns anos atrás, eu estava viajando para a Europa, quando, de repente, o avião entrou numa zona de turbulência e começou a chacoalhar muito. Embora eu não tenha medo de avião, confesso que me assustei. Os piores pensamentos insistiam em se apresentar à minha consciência. Depois de algum tempo, resolvi ler para tentar distrair-me. Eu trazia comigo os Ensaios de Montaigne, o livro de Filosofia que mais gosto de ler e talvez o mais interessante para quem quer conhecer o ser humano na sua vida cotidiana e não em termos especulativos.


Lembrei-me de um capítulo intitulado Que filosofar é aprender a morrer. Platão já definira assim a Filosofia. Os estóicos, Cícero, autores medievais e até contemporâneos, como Heidegger, entendem que a Filosofia é, ao menos em parte, uma preparação para a morte. Comecei, um tanto inquieto, a reler o capítulo. Segundo Montaigne, quem não teme a morte não teme nada; e quem nada teme viverá tranqüilo e sem preocupações. A solução para viver feliz seria, então, preparar-se para a morte, pensando incessantemente nela.

 

Por exemplo, numa festa, em vez de beber e dançar, devemos estar preparados para um ataque fulminante, já que a morte pode surpreender-nos em qualquer situação. E não se deveria evitar a palavra “morte”, dizendo que “fulano passou desta para uma melhor”. Não. Devemos encarar o inevitável de frente, com os olhos abertos.


É bem verdade que, em capítulo posterior, Montaigne admite que essa estratégia não funcionou e que, ao pensar sempre na morte, estragava os bons momentos que poderia desfrutar. Montaigne entende que devemos nos divertir, isto é, levar aos poucos o pensamento sobre uma coisa ruim para uma coisa boa, associando idéias intermediárias que desviem nosso pensamento
e nos façam esquecer do que é desagradável. Parece-me que, para bem viver, essa segunda estratégia é superior ao pensamento fixo na morte.


Naquele momento, porém, em que o avião balançava e pulava, a reflexão sobre a morte surtiu em mim o efeito desejado. Prepareime para o pior e, em vez de tentar evitar o pensamento que não me largava, decidi dedicar-lhe todas as minhas atenções. Fiquei bastante tempo concentrado na morte e consegui, finalmente, ficar calmo. Para a minha sorte, o resto do vôo não teve mais turbulências...

 

Plínio Junqueira Smith é coordenador do Programa de Pós-graduação em Filosofia da Universidade São Judas Tadeu e do Projeto Temático Ceticismo (Fapesp).


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