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Nietzsche
não gostava de Sócrates. Não
era para menos: ele via o filósofo grego como
um dos primeiros a colocar para a filosofia as questões
morais. Na sua doutrina, Nietzsche dizia que toda
nossa infelicidade moderna surgiu
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quando
começamos a substituir avaliações técnicas
por avaliações morais.
Por qual motivo Nietzsche achava que isso teria nos trazido
a infelicidade? Por uma razão simples: estaríamos
vivendo com má-consciência – a culpa. Sócrates
e Platão teriam aberto caminhos para a doutrina judaico-cristã
da culpa pelo erro, que teria se tornado um pecado –
a maldade.
Nietzsche via os pré-socráticos como um antídoto
para o modo de filosofar com base na moral. Nessa linha, Heráclito
foi eleito o filósofo sadio par excellence. Tomando
o cosmo como um todo em transformação, elegeu
o fogo como o que exprime esse mundo em mutabilidade, o que
implicaria a aceitação da desmedida (a hybris),
da destruição, do conflito, da guerra. O cosmo
heraclitiano implicaria a injustiça espraiada. Mas,
sem ela, não haveria a harmonia do todo, que é
como o fogo que se transmuta o tempo todo.
Ora, Heráclito esteve realmente preocupado em dizer
que o fogo viraria água e vice-versa. Nietzsche lembra
que este, e não outro, era um problema sério
para Heráclito, o de saber sobre o elemento do cosmo.
Assim, se alguém viesse a perguntar para Heráclito
por que o fogo não é sempre fogo, por que agora
é água e logo será terra, ele diria:
“É um jogo, não se aborda pateticamente
e, sobretudo, de modo moral”.
O papel dos artistas
Livre de julgamentos morais a respeito do cosmo, Heráclito
teria sido como um deus além do bem e do mal, com os
olhos no todo. Mas quem não soube ver isso, escreveu
Nietzsche, teria interpretado Heráclito como alguém
desolado diante do devir do mundo. Houve quem assim agiu?
Sem dúvida! Os artistas e, por conseguinte, parte dos
manuais de história da Filosofia.
Os artistas, principalmente os que pintaram entre os séculos
16 e 17, seguiram a interpretação de Teofrastro
(378-287 a.C.). Foi o homem que herdou de Aristóteles
não só sua biblioteca particular, mas todo o
Ateneu. Quando faleceu, recebeu homenagens de toda Atenas
e contabilizava mais de 2 000 alunos na antiga escola aristotélica.
A absorção da filosofia grega pelos religiosos
da Igreja Católica, mais tarde,
consagrou durante muito tempo a visão da antiguidade
tardia a respeito de muita coisa, em especial o que fizeram
os pré-socráticos. Isso desaguou na produção
situada entre a Renascença e o fim do Antigo Regime
– o que em arte conhecemos como Período Barroco
e em filosofia como o do início da Era Moderna. Foi
aquele Heráclito, vindo desse tipo de interpretação,
que vingou para os grandes pintores dessa época. Um
Heráclito moral, chamado de “o obscuro”,
homem taciturno e triste (veja o quadro “Retrato da
Melancolia”).
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