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ADEUS ÀS FIGURAS
 

 

 

 

 

A pintura passou por muitas transformações, sofreu
a concorrência da fotografia e,
aos poucos, deixou
de lado o apego pelas formas calcadas na realidade


U
m dos temas mais interessantes da Estética ou da “ciência do belo”, como alguns a chamam, é justamente o fim da figuração, a dissolução da imagem representativa e bem definida numa obra de arte. Essa crise foi alimentada pela invenção da fotografia, por volta de 1838, chamada então daguerreótipo em homenagem ao francês Daguerre (1787-1851), um dos inventores do método de fixar imagens em chapa pela ação direta da luz contra ela. Quase simultaneamente, Talbot (1800-1877), um inglês, inventava a técnica do chamado negativo, ou seja, a possibilidade de reprodução da imagem fotografada.


Com esse processo consumado e a facilidade de captar e reproduzir imagens de pessoas e da natureza, aumentou entre os artistas a angustiante dúvida e o questionamento em face de uma das noções mais antigas da filosofia e das artes: a noção de mímesis, isto é, de imitação, de representação de um objeto, que tanto impulsionou as artes figurativas. A fotografia dava em minutos aquilo que toda a arte procurou por tanto tempo: a representação aparentemente perfeita da natureza e dos seus seres.

 

Cópias e imitações
É em sua obra principal, República, que Platão (427-347 a.C.), ao tratar das artes, o faz pela lente do conceito de mímesis artística. E o que ali vemos não é nada abonador. O artista, ao representar algo já presente na natureza efetiva diante de nós, em verdade simula algo que por sua vez já seria imitação de uma imagem prévia à realidade: a Idéia, arquétipo ou modelo de um grupo de coisas pluralizadas no mundo temporal em que se vive.


A Idéia é como se fosse a espécie da qual os indivíduos são a cópia, o éctipo. Neste sentido, há Idéias de animais, homens, vegetais, artefatos, de tal forma que todos os animais, homens, vegetais, artefatos da realidade são cópias-imitações de seus modelos. Ora, e aqui começa a crítica de Platão à mímesis artística, quando o artista pinta uma cama ou um animal, ele imita uma imitação, ou seja, a cama do carpinteiro ou o animal da realidade.


Por seu turno, quando o poeta narra feitos heróicos, imita ações de heróis que não conhece e muito menos as praticou. Por isso a arte está três vezes distante da verdade. Por conseguinte, o filósofo grego desacredita a obra artística, pois, segundo ele, ela nos mente, nos engana com seus simulacros e, inclusive, num Estado ideal, não existe direito de cidadania para o poeta, este rei dos mentirosos. Por extensão, não existe direito de cidadania ao artista em geral.

 

Aristóteles (384-322 a.C.), por sua vez, ao discutir a noção de mímesis, em especial na poesia trágica, reabilita o conceito da crítica platônica. Em sua obra Poética, afirma que a poesia é mais verdadeira que a História, pois enquanto esta narra coisas que já aconteceram, a poesia narra coisas que poderiam acontecer e assim antecipa o que depois a História narrará. O artista imita um modelo presente em sua mente e que em algum momento deixará de ser possível e se tornará real.


Hoje em dia se diria, aristotelicamente, que a vida imita a arte, ou seja, o poeta antecipa os eventos da vida. Ademais, há uma grande vantagem na representação teatral trágica: o fato de ela despertar emoções fortes, o terror e a piedade, e conduzir assim a um estado de tensão tão elevado, que, ao fim, ocorre uma descarga, uma catarse dessas emoções. Por isso gostamos de tragédias, apesar dos eventos cruéis ali representados. A arte (em especial a trágica), para Aristóteles, é terapêutica, calmante.


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