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A REALIDADE DESAFIA A REFLEXÃO
 

 

 

O exercício do pensamento deve se libertar do ranço aristocrático e platônico
e ser compartilhado
com todos


Q
ual seria a medida para o desafio de ensinar filosofia no ensino médio noturno, num colégio em que você vê um aluno que, por ter comprado livros didáticos (de português e de matemática), é criticado pelos colegas de sala por ter “gasto dinheiro à toa”? Críticas essas que não advêm de nenhuma ignorância, mas do instinto de sobrevivência de quem recebe salário-mínimo; de quem trabalha o dia todo e à noite vai à escola sem a ilusão de encontrar ali um instrumento de emancipação. Some-se a isso um contexto educacional em que, para fazer jus às estatísticas, confunde-se quantidade com qualidade: as escolas devem atender à maior quantidade possível de alunos, oferecendo a eles “ensino”, o que, do ponto de vista da administração (a que as escolas estão submetidas, dentro da lógica capitalista de buscar sempre o lucro), significa aprovação. O quadro fica completo com a inclusão de alguns alunos que são analfabetos funcionais, vítimas de programas de aceleração de ensino falhos.

 

Cair na real
A filosofia, que nasce do ócio, deve perder nesse contexto todo o seu ranço aristocrático-platônico e abrir-se para o diálogo. O máximo que podemos pedir da filosofia é isto: abertura para a realidade, ou seja, para falar sobre os problemas enfrentados pelos alunos, para incluir temas que os toquem. Se hoje vivemos governados por imagens, pela mídia e seus ídolos, esse é o caminho que devemos tomar para começar a filosofar com nossos alunos. Por isso, escolhi como grande aliado para esse trabalho a música, partindo de letras que incluem temáticas filosóficas. A tentativa é surpreender os alunos, mostrando que naquilo que lhes toca esteticamente existem reflexões que, na maioria das vezes, passam despercebidas.

 

Por exemplo: a cantora baiana Pitty, há pouco tempo, lançou uma música chamada Lobo. No refrão, a música retoma uma frase de Thomas Hobbes: “O homem é o lobo do homem”. Por que Pitty diz isso? Que relação tem a música com a teoria de Hobbes? Que sentido a teoria de Hobbes pode ter no mundo atual? Podemos partir da música para apresentar uma teoria política complexa (e mesmo para mostrar em que ponto o artista se afasta do autor).


Não se trata de um exemplo isolado. É uma característica de diversas bandas do chamado rock nacional tentar articular um discurso coerente partindo de referências filosóficas. É claro, não se trata de filosofia pura, mas de citações que podem servir de instrumento para aguçar a curiosidade dos alunos. Não devemos ter medo de ferir a sacralidade da filosofia partindo de músicas, cinema ou novelas. Se a filosofia nasce do ócio, esse é o caminho para pensar nossa realidade. Ou teremos de nos render às palavras de Caetano Veloso, que nos anos 80 provocava os pensadores locais dizendo, sob a forma de um rap: “Se você tem uma idéia incrível, melhor fazer uma canção / já está provado que só é possível filosofar em alemão”.

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