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A canção do Pato Fu segue
dizendo:
“Acho muito caro o que ele tá
[pedindo
Pra eu ter muito mais sorte e
[menos azar
Acho muito pouco o que
[tenho no bolso
Pra ver o sol nascer não
[tem que pagar”
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Em qualquer esquina você pode
encontrar gente distribuindo
panfletos que prometem caminhos
para a felicidade imediata: desvendam
o futuro, desamarram as correntes,
alcachofras místicas, charutos
de orégano, empréstimos
facilitados, serviços sexuais... o perigoé que as pessoas se prendam
a essa lógica do consumo, na qual
certo produto significa felicidade. A
letra segue:
“É certo que o milagre
[pode até existir
Mas você não vai querer usar
Toda cura para todo mal
Está no Hipoglós, Merthiolate
[e Sonrisal”
O “milagre”, algo de mágico e
sobrenatural, pode até existir, no
entanto, é melhor procurar um caminho
que se possa seguir de forma
mais fácil, ou seja, um remédio que
tenha um preço de mercado definido.
Por isso, “toda cura para todo
mal/está no Hipoglós, Merthiolate
e Sonrisal”. Nossa terapia cotidiana é buscar no consumo um remédio,
uma droga psicológica que
nos alivie da ansiedade e da angústia,
mas sem medida. O problema
não está no consumismo: a grande
questão é quando toda a existência
do homem passa a ser dominada
por essa lógica que nunca o sacia.
Caímos em um paradoxo, como
observa Gilles Lipovetsky, já que
compramos a imagem do prazer
dionisíaco e ao mesmo tempo vivemos
numa “civilização de prevenção”;
ele exemplifica: “você não
pode se expor ao sol, porque causa
problemas; você não pode beber
Coca-Cola, porque tem muito
açúcar; você não pode comer muita
carne, porque tem gordura; você
tem que fazer exames médicos; você
não pode fazer sexo sem camisinha,
porque pode pegar Aids...”.
Por um lado as prateleiras prometem
redenção, por outro criamos
uma lógica da prevenção. Os dois
aspectos andam juntos e por vezes
se cruzam e se confundem. O
paradoxo se mantém na ansiedade
do consumismo: para Lipovetsky, a
sociedade torna-se paradoxal, a felicidade
torna-se paradoxal...
Como fugir desse caminho
paradoxal, existiria alguma fórmula?
Não há como sair da sociedade,
quem sabe pudéssemos
mudar nossas metas, como exemplifica a canção do Pato Fu:
“Quem tem a paz como meta
Quem quer um pouco de paz
Que tire o reboque que espeta
O carro de quem vem atrás”.
Os que querem a paz devem
começar a agir em coisas pequenas
de seu cotidiano, como retirar
o reboque “que espeta/o carro
de quem vem atrás”. A idéia não é
buscar no Estado uma ordenação
melhor da sociedade. Essa sociedade
também é hiperindividualista,
ou seja, o homem é mais responsável
por sua existência, ele
possui maior liberdade para fazer
escolhas e ao mesmo tempo é
mais frágil, já que vive a angústia
dessa liberdade.
Talvez não exista uma fórmula
para sair do paradoxo. Por
isso faz tanto sentido cantar o
nonsense dessa felicidade irônica
e contagiante, como no refrão
do Pato Fu:“Uh uh uh, lá lá lá, ié ié!”.
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