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FELICIDADE NONSENSE
 

 

O que fazer para tentar ser feliz?”, esse é o teorema que todas as sociedades têm que responder. Ele está presente, como pano de fundo, na maioria dos tratados de filosofia, livros religiosos, literários, etc.

 

A princípio, essa busca era tanto política quanto ética: queriam encontrar a fórmula da sociedade feliz, na qual cada um teria o seu bocadinho desse bem.


Posicionar-se ante essa questão não significa desvendar o caminho para a felicidade. O dito “faça tudo para ser feliz” pode inspirar muita maldade e violência. Filósofos como Immanuel Kant negaram que a busca da felicidade pudesse ser o fundamento da vida moral: as causas desse sentimento são extremamente variáveis, sendo esse um alvo impreciso e instável, haja vista que os desejos do homem estão sempre em jogo.

 

Para o filósofo alemão, deveríamos procurar nos tornar dignos da felicidade tentando fazer os outros felizes e nos auto-aperfeiçoando. São dois caminhos muito difíceis e que não garantem a realização da própria felicidade. Fazer os outros felizes não é um alvo que se possa ter certeza de alcançar: você pode fazer tudo pensando na felicidade do outro e depois descobrir que não alcançou seu intento. Depois do romantismo, a idéia da busca de uma perfeição privada tornou-se tremendamente idiossincrática: cada qual deveria inventar seu caminho de auto-aperfeiçoamento. É difícil pensar que numa sociedade hedonista como a atual, na qual “o prazer é o princípio e o fim da vida feliz”, as pessoas possam seguir o que pede o filósofo alemão.

 

Na sociedade atual, marcada pelo hiperconsumismo as questões mudaram de lugar. Como diz o primeiro verso da canção Uh uh uh, lá lá lá, ié ié! do Pato Fu:


“As pessoas têm que acreditar
Em forças invisíveis pra fazer o

[bem

 

Tudo que se vê não é suficiente
E a gente sempre invoca o nome

[de alguém”

 

Para fazer o bem, o homem teria sempre que fazê-lo “em nome de...”, ou seja, acreditar que tem a procuração de alguém que valide sua ação. Alguns querem falar em nome da religião, outros em nome da filosofia, muitos, pela política... Esperando as “recompensas” que essas posições prometem. No entanto, sabemos que as pessoas que falam “em nome de”, não sentem necessidade de dialogar com quem pensa de maneira diferente. Quantas guerras “em nome de Deus”? Quantas atrocidades em nome da Liberdade?


Em nossa sociedade, capitalista e hiperconsumista, não temos mais pontos de referência estáveis nem limites precisos para a ação. Todas as diferenças são apagadas “em nome de” um único valor: o valor de mercado. Esseé o novo totem da tribo.

 

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