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Clímacus
Johannes Clímacus ou É Preciso
Duvidar de Tudo é um “romance
autobiográfico”. Por meio
de Clímacus, Kierkegaard empreende
um árduo trabalho analítico
não deixando pedra sobre
pedra no que se refere ao sentido
das proposições sobre a dúvida
e o seu acesso à filosofia.
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Explorou Descartes e Hegel com
propriedade e conclui que a dúvida
total e irrestrita é uma loucura
e uma impossibilidade que
os filósofos imputam aos outros,
tais como os fariseus que, expostos à crítica feroz de Cristo, colocavam
fardos pesados demais às pessoas sem os colocarem a
si mesmos. O subtítulo De Omnibus
Dubitandum Est (É Preciso
Duvidar de Tudo) é uma referência
direta a Descartes que figura
no início dos Princípios de Filosofia.
Este escrito quer atingir tanto
Hegel como Descartes.
Clímacus é uma tradução latina
do nome de um monge grego
que vivera no monte Sinai no século
6. Esse monge empreendia
longa meditação sobre o sonho
de Jacó quando este viu uma escada
que subia ao céu em direção
a Deus. Sobre essa passagem bíblica
escreve uma obra chamada
A Escada do Paraíso ou A Escada
Espiritual. O nome da obra lhe valeu o nome Clímax: “escada”
em grego. Não foi por acaso que
Kierkegaard escolheu esse nome
para seu maior e talvez seu único
verdadeiro heterônimo.
Clímacus, como se pode deduzir
da leitura do pequeno “romance”,
faz justiça à origem de
seu nome; vindo de um eremita,
ele mesmo agia como tal: “retirado
e em silêncio”, em meio à
sociedade, ficava a meditar dia e
noite, já que “o murmúrio secreto
dos pensamentos” lhe era mais
interessante do que as idas e vindas
das pessoas. Sua paixão, seu
enamoramento era pelo pensar.
Esse pensador de modo algum
se diz à altura de tantos outros filósofos
de seu tempo, mas não compreende como eles fizeram o movimento
que os levou a duvidarem
de tudo com êxito e pré-condição
para adentrarem na filosofia. Importando-lhe mais esse movimento
do que propriamente os resultados,
Clímacus conclui que os filosofantes
não explicitam seus percursos
intelectuais ao ponto de esclarecerem
como chegaram àquilo que
tanto pregam, criando um saber “sistematizado”. Bastando uma decisão
firme de espírito para ir em
frente, julgava que poderia concluir
o intento de elucidar os percursos
possíveis dos filosofantes.
Kierkegaard foi, a seu modo,
um artista, um poeta. Ele nos fala
de um modo que remete àquela
espécie de saber que tende a preencher
as necessidades humanas
mais prementes: de sentido existencial
e religioso. Fala da finitude.
Embora adentrando o nível do conceito, o filósofo não sai
de todo do campo da palavra,
do acontecer do fenômeno, estranho
e desafiador. Tal atitude é
bastante notória nos artistas que
nos transmitem, ou tentam transmitir
sua experiência do mundo,
transmutando-a em sentido possível.
Enfim, possibilitando um
aparecer da verdade.
O conceituar kierkegaardiano
não é um discurso objetivador e
sistemático, mas sim um expor e
um expor-se numa lírica poética
na qual as personagens são filósofos,
mas sobretudo poetas. Isso
mostra como Kierkegaard não
podia dar explicações exaustivas,
deixando a cargo daquele que,
lendo algum escrito seu, pudesse
perceber o fenômeno ali diante
de si, mas escondido no devir humano
marcado pela procura, pela
tarefa sempre recomeçada de
procurar um sentido. Em Kierkegaard,
o fenômeno se diz deste
modo, e esta evidência basta por
si mesma. Talvez inspirado em
Platão (que não falava por si, mas
por outro) e para não pôr a perder
o projeto de crítica à cristandade
não pôde aparecer. Preferiu
recorrer à “mistificação”, à pantomima “de modo a fazer aparecer
o cômico” onde ele mesmo,
aí, “não se reconheça”.• |