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O HOMEM EM QUESTÃO
 

 

Este é, com uma boa dose de generalização, um resumo do contexto em que o “homem verdadeiro” vem sendo esculpido pela educação. A perfeição do homem que se busca pela educação tem sido profundamente marcada pelo trabalho rentável, como forma de acesso ao mundo do consumo. Como conseqüência, a educação técnica, voltada para o mercado de trabalho, domina a maior parte dos interesses humanos, dos projetos pessoais e coletivos. É, de fato, uma crença corriqueira – refletida até mesmo nas diretrizes do Ministério da Educação – que professores ou educadores têm por função capacitar, desenvolver “habilidades e competências” para

o exercício profissional, para que o aluno “seja alguém na vida”, como as crianças declaram nos telejornais.


Formação técnica, profissional, é uma parte essencial de qualquer projeto educativo e pessoal, mas não é e não pode ser tudo. Um homem que não coloca sua formação profissional na perspectiva das demais dimensões da vida (social, política, estética, moral, religiosa, etc.) se assemelha a um fruto nobre atirado num mar de águas violentas e turvas; sem saber qual é seu destino, ele deixa que os ventos e a maré mais forte o conduzam. E essa tem sido, com efeito, a deficiência mais grave da nossa civilização: não criar espaços formais e informais para que questões da ordem da finalidade da vida sejam produzidas. “Para que vivemos?” e “O que é uma vida desejável e digna de ser perseguida por um homem?” são questões que passam ao largo da maioria dos projetos individuais e coletivos.

 

Cotidiano filosófico
Talvez não seja demasiado indicar que as coisas nem sempre se passaram assim. Houve um tempo em que o destino do homem era a pauta de todo dia. Refiro-me, naturalmente, à cultura pagã da Antiguidade (Grécia e Roma). Sócrates foi o principal representante dessa tradição. Devemos a Sócrates a afirmação de que uma vida que não for examinada não vale a pena ser vivida. Essa tradição também ecoou entre os latinos, sobretudo no estoicismo romano.


Com o desaparecimento da cultura antiga, o cristianismo tornou-se o principal defensor do pensamento em torno da realidade do homem. Mas o fez sobre outras bases. A história humana deixou de ser definida autonomamente, abandonou-se a idéia de que o homem se realiza em si mesmo e que pode se definir por sua própria força. Foi o período da instauração da ordem eterna, o período da instauração da imagem de que o homem, por ser infinito e criatura divina, poderia encontrar sua plenitude e destino fora de si mesmo, junto de Deus. As ações desta vida e deste mundo, segundo a filosofia cristã, são ações que devem se conformar a uma ordem maior, suprema. Escolhemos nosso caminho, mas essa escolha deve ser pautada por preceitos estranhos ao homem e definidos fora de nós. Assim o cristianismo nos ensinou a pensar.

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