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FOLIA DOS DEUSES
 

 

 

Finalidade de vida
Apolo e Dionísio, a harmonia e a embriaguez, fazem da reflexão acerca da obra de Nietzsche também uma reflexão sobre o homem moderno. Logo, pode-se estender essa reflexão ao homem brasileiro e sua criatividade em conquistar o mundo e esquecer a morte. Portanto, a sua finalidade em carregar consigo Apolo e Dionísio é viver.


Para Nietzsche, só por meio da arte a vida vale a pena ser vivida. Por outro lado, é possível por meio dela justificar a existência de um mundo cheio de horrores e espantos, que, visto sob o ponto de vista artístico, pode ser belo e aprazível, com a bela aparência apolínea e a embriaguez musical dionisíaca – na Grécia antiga, movida pelo coro de ditirambo; no Brasil moderno, pelo coro de sambistas.

 

Depois de muito refletir chega-se à conclusão de que a arte apolíneo-dionisíaca, que segundo Nietzsche fundamentava a tragédia grega, tem no atual carnaval brasileiro um representante digno. Este não se concentra apenas nos palcos, esparrama-se pelas ruas e avenidas, pelos morros, pelos salões e quadras, mostrando ao mundo os novos seguidores de Apolo e Dionísio. Sob a batuta desses dois deuses, o homem rico dança e canta ladeado pelo homem pobre; nesse momento – pela arte da música e da aparência – não há distinções entre eles, nem mesmo a diferença social, que no cotidiano os faz tão distantes. Essa é uma das razões pelas quais a arte carnavalesca segue através dos anos animando não só os brasileiros, mas também tantos estrangeiros, que, embriagados pelo apolíneo-dionisíaco, pela música e suas múltiplas imagens, fazem dela o evento que marca na era moderna o triunfal encontro entre Apolo e Dionísio, como descreve Nietzsche em O Nascimento da Tragédia:


“Dionísio fala a linguagem de Apolo, mas Apolo, ao fim, fala a linguagem de Dionísio: com o que fica alcançada a meta suprema da tragédia e da arte em geral (...) Nos termos desse entendimento devemos compreender a tragédia grega como sendo o coro dionisíaco a descarregar-se sempre de novo em um mundo de imagens apolíneo”.

 

Integração total
O mundo dionisíaco e sua profusa festa de imagens apolíneas: talvez nenhuma manifestação artística, nos dias atuais e principalmente no Brasil, seja mais apolíneo-dionisíaca. A bela aparência, a harmonia, a embriaguez, o êxtase, a medida e a desmedida (hybris), estão presentes no carnaval, como estavam presentes na tragédia grega, que tinha em seu coro de ditirambo seu expoente máximo. O carnaval tem no coro de sambistas, entoando o samba-enredo da escola de samba que desfila com seus carros alegóricos, o seu momento de maior esplendor na avenida. Por meio do coro, que é acompanhado por milhares de vozes, é justificada a vida miserável das ruas e dos morros, num momento de total integração entre os homens.


Na avenida, o lixo e o luxo são música e poesia; ali, podemos compreender por que a tragédia era tão importante para os gregos. Por meio dela, eles aceitavam o “absurdo da existência”, criando seus deuses olímpicos, que desfilavam no grande carro e se apresentavam no teatro de Dionísio, dando sentido à própria vida, desmistificando a sabedoria pessimista de Sileno:

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