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FOLIA DOS DEUSES
 

 

 

Por meio de O Nascimento da Tragédia, de Nietzsche, o carnaval brasileiro pode ser visto como representação apolíneo-dionisíaca da celebração da vida e da arte

 

Como os antigos gregos desfrutavam a vida apesar dos infortúnios? Considerando a obra O Nascimento da Tragédia, de Friedrich Nietzsche (1844-1900), é possível situar o carnaval brasileiro como manifestação trágica? É possível compreender o homem brasileiro e a arte do carnaval diante da filosofia trágica de Nietzsche? É possível, desde que se consiga ver o homem brasileiro e sua manifestação artística mais popular, o carnaval, numa perspectiva apolíneo-dionisíaca.


Nietzsche entende Apolo como deus da aparência, da harmonia, da ordem, da sensatez. Dionísio, como deus da dança, do caos, da desordem, da embriaguez. A harmonia e a embriaguez presentes no apolíneo-dionisíaco levam à reflexão sobre a tragédia e sua importância entre os gregos, baseada na primeira obra de Nietzsche O Nascimento da Tragédia.

 

O carnaval, parte do calendário oficial de diversas cidades brasileiras, é uma celebração profana que teve origem na Antiguidade e foi adotada pelo cristianismo (veja o quadro “Raízes do carnaval”). Hoje, em todo o mundo se celebra o carnaval de formas diferentes, e, no Brasil, ficaram famosos os desfiles de escolas de samba, que oferecem, anualmente, prêmios ao carnavalesco, como a tragédia grega oferecia, também anualmente, ao tragediógrafo. Conseqüentemente, é possível contextualizar o homem brasileiro e o carnaval no filosofar nietzschiano, tendo como elemento central de nossa reflexão a obra citada.

 

Segundo Nietzsche, Sócrates e Platão foram os responsáveis pela transformação da tragédia em mera exposição de conceitos. Para ele, a arte trágica (tragédia) concebida antes desses pensadores, em seu sentido original, era movida por um coro ditirâmbico, com a música, que para ele constituía o seu principal elemento. Muito mais que um jogo de palavras, a tragédia grega, sob o olhar nietzschiano, não pode ser vista nem pensada conceitualmente, pois dá acesso às questões fundamentais da existência do homem enquanto ser estético e temporal. A experiência trágica, como toda experiência artística, é capaz de justificar a existência do pior dos mundos, tendo por base a relação de duas forças que, juntas, se completam. Citando O Nascimento da Tragédia:

 

“O contínuo desenvolvimento da arte está ligado à duplicidade do apolíneo e do dionisíaco, da mesma maneira como a procriação depende da dualidade dos sexos, em que a luta é incessante e onde intervêm periódicas reconciliações (...) A seus dois deuses da arte, Apolo e Dionísio, vincula-se a nossa cognição de que no mundo helênico existe uma enorme contraposição, quanto a origens e objetivos, entre a arte do figurador plástico [Bildner], a apolínea, e a arte não-figurada [unbildlichen] da música, a de Dionísio: ambos os impulsos, tão diversos, caminham lado a lado, na maioria das vezes em discórdia aberta e incitando-se mutuamente a produções sempre novas (...)”.

 

Como se constata nesse trecho, esses dois deuses da arte, Apolo e Dionísio, são de importância fundamental para a criação da tragédia ática, sem a qual a vida dos gregos se tornaria um tédio, uma lágrima vazia, sem causa e efeito. É, de certa forma, uma analogia à vida dos brasileiros: sem o carnaval, nossa festa e arte mais popular, o cotidiano certamente perderia um pouco de significado, principalmente na cidade do Rio de Janeiro, que tem nessa festa sua expressão máxima.

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