Não obstante, a educação se configura como
um processo, e não há mágica que possa levar,
imediatamente, de uma situação dada a outra. O
saber filosófico, ultrapassando tanto o formalismo
técnico como a instrumentalidade, característicos
das disciplinas científicas, deixa aberta aos
alunos a possibilidade de procurar, por si mesmos,
respostas aos problemas em questão. Oferece
a eles um germe de autodidatismo. Na medida
em que não tem objeto nem produto pronto, a
filosofia conduz à construção de uma reflexão sobre
os objetos e resultados das investigações das
ciências singulares, e fornece os meios para uma
análise crítica da realidade da vida concreta. Ao
manusear os conceitos filosóficos, seu poder significante e explicativo, o aluno é levado a perceber
os nexos e as ligações entre as idéias, e entre
estas e o mundo, pois não é convidado a simplesmente
aderir ao conhecimento apresentado.
Isso, todavia, é apenas uma possibilidade: é preciso
dizê-lo, uma vez que a filosofia ganhou um aspecto
messiânico, por ocasião da recente aprovação
da sua obrigatoriedade no ensino médio. Devemos
esclarecer esse fato, para que não se atribua a ela,
como disciplina da grade curricular, encargos maiores
do que ela pode suportar. É necessário, por conseguinte,
entendê-la como um fator, entre vários, de
um quadro causal, cujo conjunto delineia a educação
na atualidade, e que precisa ser transformado
em diversos aspectos. Caso contrário, ficaremos ao
sabor da contingência das circunstâncias, ou das características
subjetivas de um ou outro professor, que
eventualmente pode obter resultados muito favoráveis,
mas na maioria das vezes não tem sucesso.
Assim, o resultado a que cheguei foi o possível
diante das condições que se apresentavam, satisfatório
em alguns pontos, não satisfatório em outros.
Em todo caso, a existência da filosofia como disciplina
do ensino médio e o papel desempenhado
por ela permanecem importantes para incentivar
a reflexão, pois ainda que ela não seja compreendida
em toda sua complexidade pelos alunos, sua
simples presença como um “corpo estranho” gera
questões a respeito do que é ou não é útil, pela mera
indagação “para que serve a filosofia?”, questão
eminentemente filosófica. |