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A resposta custou a expulsão
de Sólon das terras de Creso,
mas deixou algumas observações
curiosas sobre os critérios para
definir a felicidade. Primeiramente,
o critério negativo: ela não é
medida a partir da condição econômica
do homem. O ser humano
nunca basta a si mesmo.
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Por
mais riqueza que tenha, nunca
poderá afirmar-se integralmente
satisfeito. A felicidade – e aqui
se explicita o segundo critério –
é caprichosa. Nada mais comum
na vida do que a “desgraça na
opulência” e a “ventura na obscuridade”.
Enfim, a fortuna não
pode ser julgada pelo próprio homem.
A felicidade também não
passa por critérios objetivos, como
a disponibilidade dos bens.
Há em comum aos dois exemplos
citados por Sólon o final trágico
das histórias dos personagens:
ambos morrem no auge
da ventura. Também é possível
afirmar o caráter consagratório
de suas mortes, como se a condição
de homem feliz tivesse de ser
reconhecida publicamente por
meio de monumentos memoriais.
Isso ocorre por efeito de uma terceira
identidade: em ambos, a felicidadeé consagrada em razão
do cumprimento de um dever.
Permissão para ser feliz
Atualmente, pode-se estranhar
a idéia de felicidade pós-morte.
De que adianta a consagração
se dela não se pode usufruir?
Herbert Marcuse (1898-1979)
escreveu nos anos 1930 acerca
do paradoxo da caracterização
mortal da felicidade. Por um lado,
acompanha a crítica de Sólon
contra a corrente filosófica do eudemonismo,
para a qual a fortuna é relativa à posse de bens exteriores.
Ora, se o homem é feliz apenas
de acordo com suas posses,
constata-se que seu humor varia
conforme a ordem social da vida – o que fica demonstrado com a
história de Creso: suas riquezas
não o livram da angústia de ser
reconhecido socialmente como
um dos homens mais felizes. O
efeito catastrófico dessa posição
estaria naquilo que se perde: a liberdade
do indivíduo.
Marcuse também reconhece a
insuficiência da posição de Sólon.
A consagração pós-morte limita-se
apenas a afugentar-se deste mundo,
sem enfrentar suas contradições.
Nesse aspecto ocorre um “estranho fato comum” na história
da filosofia: os opostos se atraem.
A contraposição entre Sólon e
o eudemonismo revela-se aparente.
Cada um aceita a seu modo a
impossibilidade da realização da
felicidade na ordem antagônica
do mundo existente. Por um lado,
o sábio a realiza somente após
sair da ordem existente no mundo;
por outro, o eudemonista apenas
quando imerso na ordem do
mundo existente. Por essas vias,
conclui Marcuse, o mundo existente
permanece como uma necessidade
inexorável, e em ambos
os casos orienta os impulsos ditosos
somente para aquilo que é, e
não para aquilo que “deve ser”.
Para além desse paradoxo,
Marcuse abre pela linha filosófica
do hedonismo uma nova perspectiva.
Surgida na Idade Antiga, essa
corrente de pensamento marca
outra forma de oposição ao eudemonismo, contrariando também
a perspectiva de Sólon. Em vez
da aceitação da miséria externa,
os hedonistas situam a felicidade
nos prazeres. Não partem de
uma organização da satisfação
plena que separe corpo e alma
felizes. O prazer pode ser de natureza
tanto material quanto espiritual,
assim, a ventura transita
entre as duas dimensões. |