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Herbert Marcuse problematiza o modo como a sociedade
contemporânea persegue a plena satisfação na vida
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Certa vez, Creso – príncipe da
Lídia e um dos homens mais
poderosos da Grécia antiga – encontrou-se com Sólon, um dos
grandes sábios atenienses da época. Após mostrar-lhe todas
as riquezas provindas de suas
conquistas, perguntou ao sábio
quem era o homem mais feliz.
Na cabeça soberba de Creso, a
resposta era clara: ninguém menos
do que ele próprio poderia
encarnar a felicidade.
Sólon percorrera o mundo antigo
observando as leis e os costumes
dos povos, e tinha diante
de si toda a riqueza e glória do
reino da Lídia. Mas o sábio surpreendeu
Creso. Para o príncipe,
o homem mais feliz era Telos de
Atenas, que, residindo em uma
cidade florescente, teve dois filhos
virtuosos, que lhe deram netos.
Depois de usufruir uma fortuna
considerável, terminou seus
dias de maneira admirável: em
combate. Saindo em socorro de
seus filhos, afugentou os inimigos
e pereceu gloriosamente. Para
homenageá-lo, os atenienses
ergueram um monumento no local
onde Telos havia tombado.
Contrariado por não ser reconhecido
como um dos mais felizes
entre os homens, o príncipe
perguntou quem o seria depois
de Telos, certo de que estaria entre
eles. Novamente Sólon não
correspondeu às expectativas
do príncipe. Os irmãos Cleóbis
e Biton ocupariam essa posição.
A explicação seria a seguinte:
a mãe dos dois, sacerdotisa do
templo de Juno, tinha que chegar
o quanto antes para os preparativos
das festas da deusa grega.
Como os bois que puxariam
o carro da sacerdotisa não estariam
prontos a tempo, os filhos
se atrelaram ao carro. Percorreram
uma longa distância e, quando
chegaram exaustos ao templo,
foram louvados pela bela ação. A
sacerdotisa pediu a Juno que lhes
concedesse a maior felicidade
que poderia alcançar um mortal.
Após os festejos, os rapazes adormeceram
para nunca mais acordar.
O povo ergueu monumentos
para homenageá-los e consagrá-los
como homens perfeitos.
Creso não conteve sua raiva.
Afinal, por que o sábio fazia pouco
caso de sua felicidade? Sólon,
então, replicou: “Possuís certamente
riquezas consideráveis e
reinais sobre um grande povo,
mas não posso responder a vossa
pergunta sem saber se terminareis
os vossos dias na abundância;
pois o homem cumulado de
riquezas não é superior àquele
que possui o necessário, a menos
que a boa sorte o acompanhe e
que, gozando de todas essas espécies
de bens, termine venturosamente
a existência. Nada mais
comum do que a desgraça na
opulência e a ventura na obscuridade.
Um homem imensamente
rico, mas infeliz, tem apenas
duas vantagens sobre o feliz, enquanto
este conta com grande
número delas sobre o rico infeliz.
O homem rico está mais em
condições de satisfazer seus desejos
e de suportar grandes perdas,
mas se o outro não pode resistir
a essas perdas, nem contentar os
desejos, sua felicidade o põe a coberto
de umas e de outros. Aliás,
admitindo que ele esteja no uso
de todos os seus membros, goze
de boa saúde, não sofra nenhum
desgosto e seja feliz com os filhos;
se a todas essas vantagens acrescentardes
a de uma morte gloriosa,
aí tereis o homem que procurais.
(...) Mas, antes da morte,
evitai julgá-lo; não lhe deis esse
nome; considerai-o somente bem-aventurado”. |