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ISSO É ESPARTA
 

 

Arte no sofrimento E, na adversidade mais terrível, os helenos produziram arte. Para suportarem tal existência e não caírem em uma desmesura de força que os destruiria, criaram elementos artísticos e políticos. Principalmente a arte trágica: homens e deuses se confrontando; vida e destino; a vivência da realidade sem transcendências em um pós-morte;

a afirmação de si quando tudo leva ao oposto. A raça grega era uma exceção. A batalha nas Termópilas é exemplar de uma raça forte que afirma a vida mesmo diante da morte certa. Nietzsche está certo quando escreve que os “homens mais espirituais, pressupondo-se que sejam os mais corajosos, também experimentam as mais dolorosas tragédias: mas justamente por isso honram a vida, porque ela lhes opõe o seu máximo antagonismo” (Crepúsculo dos Ídolos, Incursões de um extemporâneo, aforismo 17).


O homem superior aprendeu a duras penas como fazer de sua existência algo de belo. “Beleza” é buscar superar a si mesmo, não se perceber como um sujeito qualquer, preocupado em consumir, divertir-se ingenuamente, iludido de que é feliz. O artista busca exercer sua vontade de poder em meio à dureza da vida. Exemplo disso é a educação da criança espartana desde a casa até a formação militar, que a ensina a não retroceder nem se render. Diante da ameaça de “arrebanhamento” imposta por Xerxes, a atitude de Leônidas é esbravejar ao mensageiro persa que a recusa à escravidão não é uma loucura, mas que “Isso é Esparta!”. Os espartanos dizem “Não!” para afirmarem um “Sim!” que os atira na batalha. Exercem seu instinto de combate.


Apolíneo e dionisíaco
Percebe-se uma união entre excesso e disciplina, medida e desmesura. É o que Nietzsche chamou de apolíneo e dionisíaco. Apolo é o lado visionário do humano: ele visualiza a si mesmo afirmando-se numa embriaguez de formas, limites, e expressão. Dionísio é a embriaguez: é a transgressão dos limites; é a excitada expressão da vida em prazer/terror, é a vida afirmativa (Crepúsculo dos Ídolos, Incursões de um extemporâneo, aforismo 34).

 

O par Apolo-Dionísio encontra-se, por exemplo, na forma da falange espartana, a qual explode em violência contra os inimigos
sem perder sua formação. É a embriaguez da vontade que se avoluma e descarrega: os soldados não se detêm ante a glória para a qual marcharam.

 

O homem superior cria por afirmar sua vontade de poder, não se deixando levar pelo obscurantismo religioso e político: veja-se a cena em que a esposa de Leônidas pergunta a ele, diante do seu dilema, não o que um espartano ou um rei deveria fazer, mas o que um homem livre faria. A vontade de poder reflete os imperativos da realidade vivida com suas demandas. Leônidas não se curva aos éforos e sua ganância, nem ao “divino” Xerxes, este representando a vontade de aniquilamento a tudo que não seja ele mesmo.

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