Em 2008 se celebra a efeméride de nascimento
de um autor que se notabilizou por criar múltiplas
personalidades para produzir seus textos e
dar voz às suas vastas e variadas idéias. Dito desse
modo, é inevitável se lembrar do poeta lusitano
Fernando Pessoa, nascido em 1888, famoso por
seus heterônimos. Mas na verdade falamos de um
solitário pensador dinamarquês, nascido 75 anos
antes, importantíssimo para o existencialismo e
para a teologia: Sören Aabye Kierkegaard.
Pode parecer simplista a comparação entre os
dois intelectuais. Mas uma análise mais apurada
mostra que Kierkegaard, tal qual o mestre da poesia
portuguesa, tecia uma trama complexa entre seus
heterônimos, formando uma base literária na qual
atuavam personagens com idéias aparentemente distintas,
que até mesmo se criticavam entre si. Esse
turbilhão filosófico ganhou reputação de difícil, complexo
e, muitas vezes, paradoxal. Após a Primeira
Guerra Mundial, no entanto, o dinamarquês passou
a ser mais bem compreendido – como nos mostra
Marcio Gimenes de Paula no artigo “Sinfônica de um
homem só”. Ainda que as interpretações e leituras de
sua obra sejam múltiplas como seus personagens, os
estudos recentes sobre o filósofo provaram que seu
valor foi subestimado. Por isso merece a capa desta
Discutindo Filosofia, que se inicia com o artigo de
Carlos Roger Sales da Ponte. Os dois textos são leituras
fundamentais, e saborosíssimas, para melhor
compreender o grande legado de Kierkegaard.
E bom gosto é o que não falta a esta edição.
Artigos sobre Gianni Vattimo, Bernard Malamud
e Santo Tomás de Aquino também se aprofundam
no tema religioso. Dando continuidade ao
nosso especial sobre ética, entrevistamos o professor
da USP Renato Janine Ribeiro. Explicamos
o pessimismo filosófico de Schopenhauer e o determinismo
relativo de Comte, entre outros.
Uma boa leitura e uma ótima reflexão!